PORTUGUÊS: Formação do plural e mais regras básicas

Caros leitores, conforme havia prometido, vamos continuar abordando algumas e importantes regras básicas de português. Isso mesmo, aquelas regras que passam despercebidas e derrubam os candidatos desavisados ou desatentos.

Vamos a elas!

Existem muitos substantivos cuja formação do plural não se manifesta apenas por meio de modificações morfológicas, mas também implica alteração fonológica. Nesses casos, ocorre um fenômeno chamado metafonia, ou seja, a mudança de som entre uma forma e outra. Trata-se da alternância do timbre da vogal, que é fechado na forma do singular e aberto na forma do plural. Observe os pares abaixo (singular (ô) – plural (ó): aposto apostos, caroço caroços, corno cornos, corpo corpos, corvo corvos, esforço esforços, miolo miolos, poço poços, olho olhos, posto postos, reforço reforços e tijolo tijolos. É importante que você atente na pronúncia culta desses plurais quando estiver utilizando a língua falada em situações formais.

A formação do plural dos substantivos compostos depende da forma como são grafados, do tipo de palavras que formam o composto e da relação que estabelecem entre si. Aqueles que são grafados ligadamente (sem hífen) comportam-se como os substantivos simples: aguardente/aguardentes, girassol/girassóis, pontapé/pontapés…

Nesse sentido, para fazer o plural de uma palavra composta, é preciso antes verificar em que classe gramatical ela se encaixa. Basicamente, uma palavra composta pode ser um substantivo ou um adjetivo. No caso de “pombo-correio”, por exemplo, temos um substantivo composto. Afinal, “pombo-correio” é nome de algo. Se é nome, é substantivo.

O segundo passo é verificar a classe gramatical de cada elemento formador da palavra composta. No caso de “pombo-correio”, tanto “pombo” quanto “correio” são substantivos. Dizem as gramáticas que, quando o segundo substantivo indica ideia de semelhança ou finalidade em relação ao primeiro, há duas possibilidades de plural: variam os dois ou varia só o primeiro. “Pombo-correio” se encaixa nesse caso. Um pombo-correio nada mais é do que “variedade de pombo que se utiliza para levar comunicações e correspondência”, como diz o próprio Aurélio. O segundo substantivo (“correio”) indica finalidade em relação ao primeiro (“pombo”). Deduz-se, pois, que o plural de “pombo-correio” pode ser “pombos-correio” ou “pombos-correios”.

Vejamos outros exemplos de substantivos compostos que se encaixam nesse caso: “carros-bomba” ou “carros-bombas”, “homens-bomba” ou “homens-bombas”, “públicos-alvo” ou “públicos-alvos”, “sambas-enredo” ou “sambas-enredos”, “caminhões-tanque” ou “caminhões-tanques”, “navios-escola” ou “navios-escolas”, “couves-flor” ou “couves-flores”, “bananas-maçã” ou “bananas-maçãs”, “saias-balão” ou “saias-balões”.

Convém aproveitar a ocasião para lembrar que, quando o segundo substantivo não indica semelhança ou finalidade em relação ao primeiro, só há uma possibilidade de plural: flexionam-se os dois elementos. É o que ocorre com “cirurgião-dentista”, “tio-avô”, “tia-avó”, “tenente-coronel”, “bicho-papão”, “rainha-mãe”, “decreto-lei” e tantos outros. Vamos ao plural: “cirurgiões-dentistas” (ou “cirurgiães-dentistas”), “tios-avôs” (ou “tios-avós”), “tias-avós”, “tenentes-coronéis”, “bichos-papões”, “rainhas-mães”, “decretos-leis”.

Vejamos agora o caso de “cavalo-marinho”. Trata-se de substantivo composto formado por um substantivo (“cavalo”) e um adjetivo (“marinho”). Aqui não há segredo: variam os dois elementos. O plural, então, só pode ser “cavalos-marinhos”.

Esse princípio pode ser aplicado em relação a todos os substantivos compostos formados por duas palavras, das quais uma seja substantivo e a outra, um adjetivo ou numeral. Encaixam-se nesse caso muitas e muitas palavras. Veja alguns exemplos: obras-primas, primeiras-damas, queixos-duros, primeiros-ministros, amores-perfeitos, capitães-mores, cachorros-quentes, boas-vidas, curtas-metragens, quartas-feiras, sextas-feiras, boias-frias.

Tome cuidado com o caso de compostos em que entram “grão” e “grã”, como “grão-duque”, “grã-fina”, “grã-fino”, “grã-cruz”. Só varia o segundo elemento: “grão-duques”, “grã-finas”, “grã-finos”, “grã-cruzes”. Merece destaque “terra-nova” (tipo de cão), que, segundo alguns autores, faz plural excepcional: “terra-novas”. Para outros, no entanto, também é possível o plural regular: “terras-novas”.

Quando o substantivo composto é formado por três elementos, dos quais o segundo seja uma preposição, só se faz a flexão do primeiro. É esse o caso de mulas-sem-cabeça, pães-de-ló, quedas-d’água, pés-de-moleque, amigos-da-onça, bicos-de-papagaio, dores-de-cotovelo, estrelas-do-mar, generais-de-divisão, grãos-de-bico, joões-de-barro, pais-de-santo, pés-de-cabra, pores-do-sol… Observação: os fora-da-lei , os fora-de-série …são invariáveis .

Talvez esteja aí a explicação para o plural de “sem-terra” adotado por todos os órgãos da imprensa: “Sem-terra”. Por quê? Porque se supõe que haja uma palavra implícita. Algo como “homem sem terra”, que não é propriamente uma palavra composta, mas tem estrutura semelhante: dois substantivos (“homem” e “terra”), ligados por uma preposição (“sem”). O plural dessa expressão seria “homens sem terra”, que acaba sendo reduzida para “sem-terra”, com hífen, justamente porque nomeia uma categoria específica de pessoas. O caso de “sem-vergonha” é semelhante. Algo como “pessoa sem vergonha” acaba se transformando em “sem-vergonha”, com hífen. Segundo o dicionário “Aurélio” e muitos gramáticos, o plural é “sem-vergonha” mesmo. Alguns discordam e propõem “os sem-vergonhas” e “os sem-terras”. O argumento é que se deve proceder com “sem-terra” como se procede com “contra-ataque”, cujo plural é “contra-ataques”. Ocorre que esse “contra” não é a preposição, mas o elemento de composição, ou prefixo, como o define Caldas Aulete. Os casos de “contra-ataque” e de “sem-terra”, na verdade, são distintos.

Se a palavra composta for constituída de um verbo e um substantivo, somente o substantivo irá para o plural: arranha-céus, bate-papos, bate-bocas, bate-bolas, caça-talentos, guarda-chuvas, lança-perfumes, lava-pés, mata-borrões, para-brisas, para-choques, para-lamas, porta-bandeiras, porta-vozes, quebra-cabeças, quebra-molas, salva-vidas, vira-latas… Observação: em guarda-civil, guarda é substantivo e civil é adjetivo. Nesse caso, ambos vão para o plural, guardas-civis, guardas-noturnos, guardas-florestais… Já em guarda-chuva, guarda é verbo e chuva é substantivo. Só o substantivo vai para o plural: guarda-chuvas, guarda-sóis, guarda-louças, guarda-roupas, guarda-costas…

Se a palavra composta for constituída de dois ou mais adjetivos, somente o último adjetivo irá para o plural: consultórios médico-cirúrgicos; candidatos socialdemocratas; atividades técnico-científicas; problemas político-econômicos; questões luso-brasileiras; camisas rubro-negras; cabelos castanho-escuros; olhos verde-claros…

Observem: os adjetivos compostos referentes a cores são invariáveis quando o segundo elemento é um substantivo: verde-garrafa, verde-mar, verde-musgo, verde-oliva, azul-céu, azul-piscina, amarelo-ouro, rosa-choque, vermelho-sangue… Compare: olhos verde-claros = cor + adjetivo (claro ou escuro), calças verde-garrafa = cor + substantivo. Também são invariáveis: azul-celeste e azul-marinho.

Se o primeiro elemento for advérbio, preposição ou prefixo, somente o segundo elemento irá para o plural: abaixo-assinados, alto-falantes, antessalas, antissemitas, autorretratos, bel-prazeres, contra-ataques, recém-nascidos, super-homens, todo-poderosos, vice-campeões… Se a palavra composta for constituída por advérbio + pronome + verbo, somente o último elemento varia: bem-me-queres, bem-te-vis, não-me-toques… Se a palavra composta for constituída pela repetição das palavras (onomatopeias = reprodução dos sons), o segundo elemento irá para o plural: bangue-bangues, pingue-pongues, reco-recos, teco-tecos, tique-taques, ziguezagues…

Casos especiais: os arco-íris, as ave-marias, os banhos-maria, os joões-ninguém, os louva-a-deus, os lugar-tenentes, os mapas-múndi, os padre-nossos, as salve-rainhas, os surdos-mudos…

São invariáveis: compostos de verbo + palavra invariável: os bota-fora, os cola-tudo, os topa-tudo…, compostos de verbos de sentido oposto: os entre-e-sai, os leva-e-traz, os perde-ganha, os sobe-e-desce, os vai-volta…, expressões substantivadas: os bumba-meu-boi, os chove-não-molha, os disse-me-disse…

Os estudiosos das coisas indígenas afirmam que os nomes das nações indígenas não apresentam plural na sua forma original. Deveríamos dizer os tupi, os goitacá, os pataxó, os caeté. Há, entretanto, aqueles que defendem o aportuguesamento e consequente respeito às nossas regras gramaticais.

A forma reduzida “extra” vem do adjetivo “extraordinário”. Como “extra” significa “fora de”, “extraordinário” significa “fora do ordinário”, ou seja, fora do que é comum, normal, ordinário. Por ser grande, a palavra “extraordinário” não fugiu de um processo linguístico implacável: a redução. Com isso, o prefixo passou a ter também o sentido do adjetivo. Nesse caso, sua flexão é normal, como a de um adjetivo qualquer: “hora extra”, “horas extras”. Em tempo: quando usado como prefixo, nada de flexioná-lo. O plural de “extra-oficial” é “extra-oficiais”; o de “extra-sístole” é “extra-sístoles”.

Embora não existam regras rígidas para o plural de siglas, é usual e perfeitamente aceitável o uso do “s”: CDs, CEPs, IPVAs, IPTUs, Ufirs… Cuidado, porém, quanto ao mau uso do apóstrofo. O apóstrofo, em português, é para indicar a omissão de fonema/letra: copo de água = copo d’água; galinha de Angola = galinha d’angola. Não se justifica, portanto, o uso do apóstrofo para indicar o acréscimo da desinência “s” para indicar o plural.

“Reveses”, com “s”, é o plural de “revés”, sinônimo de “insucesso”, “derrota”. Já “revezes” é a forma da segunda pessoa do singular do presente do subjuntivo do verbo “revezar”, que se escreve com “z” porque é da mesma família de “vez”. “Revezar” é produto de “re + vez + ar” e significa “substituir alternadamente”: “Quero que tu te revezes com o Fernando na prova de natação”.

Apesar da palavra “lilás” ser um substantivo (uma flor), ela empresta a tonalidade de sua cor para virar adjetivo que, pela regra geral, não iria para o plural, como em certos adjetivos compostos, onde o segundo elemento é um substantivo: “calças azul piscina”, ” vestidos amarelo- -limão”. No entanto, muitos dicionários dão como plural de lilás a forma “lilases”. O mais interessante é que lilás pode ser também o plural de “lilá”. Assim, podemos ter as seguintes combinações: no singular, “camisa lilá”, “camisa lilás”; e no plural, “camisas lilás” e “camisas lilases”.

Assim também acontece com “gris” que, a princípio, é um animal (substantivo) que empresta a tonalidade da cor de seu pelo (azul-acinzentado) para se tornar um adjetivo. Dessa forma, gris pode ser singular ou plural, tendo também a forma “grises” como um segundo plural. Exemplo: “…e tudo nascerá mais belo, o verde faz do azul com o amarelo o elo com todas as cores para enfeitar amores gris (ou grises)” – verso da música NENHUM DIA, de Djavan.

Além do plural “espécimens”, a palavra espécimen possui a forma “especímenes”. Cuidado, entretanto, com a pronúncia dessas palavras. São todas proparoxítonas (a sílaba tônica é a antepenúltima) e consequentemente acentuadas, o que certamente ajuda a pronunciá-las corretamente.

Até a próxima semana. Abraços!

Fonte: Revisão & Revisões.

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Celso Charneca Leopoldino é graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, pós-graduação em Marketing para Executivos e MBA em Gestão Socioambiental. Fez vários cursos nas áreas de gestão social e de gestão de comunicação estratégica. Possui mais de 35 anos de experiência em comunicação empresarial, gestão social, relações com comunidades e relações institucionais.