PORTUGUÊS: Foram quase 120 pegadinhas em português

Prezados leitores, esse é 33º texto que escrevo sobre a língua portuguesa. Ao longo de oito meses, em média, trocamos ideias sobre português, a língua que rege nossas relações, sejam elas escritas ou faladas. E, durante esse tempo, editamos quase 120 pegadinhas que podem derrubar os candidatos a concursos públicos, caso eles não estejam atentos ou bem preparados.

Nessa trigésima terceira coluna abordaremos mais uma leva de pegadinhas em português. A partir da próxima semana, vamos diversificar nossos temas e debater conteúdos igualmente importantes para qualquer pessoa que se interesse em saber mais sobre o nosso idioma pátrio.

Então, sem mais delongas, vamos às dicas:

No quintal, havia um pé de laranjeira – a palavra pé possui vários significados em português. Aqui, ela está sendo usada no sentido de exemplar individual de uma planta. Nesse significado, dizer pé de goiabeira, por exemplo, pode-se imaginar a bizarra imagem de uma árvore com dezenas de outras menores dependuradas de seus ramos. Naturalmente, diz-se pé de goiaba. Pé de café em vez de pé de cafeeiro, e por aí se vai. A frase inicial, após a correção, fica assim: No quintal, havia um pé de laranja.

Aquela moça é tal qual suas amigas – o problema, aqui, é de concordância. Tal concorda com o termo antecedente moça. Qual deveria concordar com o consequente amigas. Veja os exemplos: Esse menino é tal quais os pais. Aqueles discípulos são tais qual seu mestre. Percebe-se que os garotos são tais quais seus pais. Diferentemente do que a maioria das pessoas escreve, o correto é: Aquela moça é tal quais suas amigas.

Encontrei bastante pessoas na praia – a palavra bastante pode ser adjetivo ou advérbio. Para classificá-la corretamente deve-se substituí-la por muito ou muita. Se uma destas palavras variar, bastante é adjetivo; se não sofrer variação, é advérbio. Se for adjetivo, sofre variação: Trouxeram bastantes frutas para o lanche da manhã (bastantes = muitas). Compareceram bastantes moças na festa (bastantes = muitas). No inverno passado, colhi bastantes frutos neste pomar (bastantes = muitos). Se advérbio, NÃO sofre variação: Eles estudaram bastante, por isso foram aprovados no concurso (bastante = muito). As pessoas que dormem cedo e acordam cedo vivem bastante (bastante = muito). As moças eram bastante bonitas (bastante = muito). Nesta página de dicas de português para concursos, escreve-se corretamente: Encontrei bastantes pessoas na praia. Encontrei muitas pessoas na praia.

O réu está em lugar incerto e não sabido – estamos diante de umas das “pérolas” do judiciário, para nenhum cartorário botar defeito. O réu que está numa situação como a expressa pela frase acima, em destaque, está duas vezes em lugar incerto ou duas vezes em lugar não sabido. Na realidade, isto é, fora da hermenêutica judiciária, uma expressão exclui a outra porque a segunda retifica a primeira. Então, usar-se-á, neste caso, a conjunção ou. Escreve-se corretamente: O réu está em lugar incerto ou não sabido. 

Dirija-se ao Departamento Pessoal – poucas pessoas, no ambiente corporativo, poderão se interessar por uma partícula tão reduzida como a preposição de, uma vez que a moda em gestão empresarial é pensar grande. Pois é, é nisso que dá! Por que não escrevem também Departamento Relações Humanas em vez de Departamento de Relações Humanas, que é o correto; ou, então, Departamento Compras em vez de Departamento de Compras, que é o certo. Escreve-se corretamente: Dirija-se ao Departamento de Pessoal.

Nós, que trabalhamos com o público, às vezes, engulimos sapos – e nós não engolimos esse erro de português, uma vez que o verbo engolir, no presente do indicativo, assim é conjugado:  engulo, engoles, engole, engolimos, engolis, engolem.  Escreve-se com correção: Nós, que trabalhamos com o público, às vezes, engolimos sapos.

Dei a ela um ramalhete de flor – o substantivo, precedido de palavra que exprime valor de coletivo, deve estar sempre na forma plural. Exemplos: caixa de fósforos, balaio de roupas, maço de cigarros, por um punhado de dólares, par de sapatos. Escreve-se com correção: Dei a ela um ramalhete de flores.

O quarto em que ele dormira, três horas depois, ainda cheirava cachaça – o quarto não cheira nada porque não tem olfato. O verbo cheirar é transitivo indireto e exige a preposição a, no sentido de exalar cheiro. Exemplos: Está cheirando a queimado. A Praia de Imbituba cheirava a maresia, depois da ressaca. Aquelas flores cheiravam a perfumes estranhos.  Escreve-se corretamente: O quarto em que ele dormira, três horas depois, ainda cheirava a cachaça.

Ao invés de jantar, saiu para caminhar – há muita confusão no uso das expressões ao invés de e em vez de. Ao invés de indica situação oposta, diretamente contrária.  Em vez de assinala  permuta, simples troca, escolha. Exemplos:  Ele encontrou a porta entreaberta e, ao invés de fechá-la, decidiu abri-la mais ainda (abrir é diretamente oposto a fechar). Ao invés de sorrir, ela chorou (chorar é diretamente oposto a sorrir). Resolvi ir caminhar, em vez de jogar sinuca (caminhar não é o oposto de jogar sinuca; é apenas uma escolha, entre tantas outras ações). Escreve-se corretamente: Em vez de jantar, saiu para caminhar. 

Nomearam Pedro no cargo de supervisor – eis, aqui, uma nomeação inadequada. Pelo menos, do  ponto de vista gramatical. A correta nomeação dá-se com as preposições como, para, por. Exemplos: Resolveu-se nomeá-lo para chefe do setor. Ontem, fui nomeado para investigar o caso. Nomearam Cláudia para a chefia do departamento. O presidente nomeou-o por secretário. O ministro nomeou-o como superintendente. Escreve-se com correção: Nomearam Pedro para o cargo de supervisor.

Carlos apaixonou-se por Judite, por isso namora com essa moça – isso é  “coisa” que jamais irá acontecer. Namorar  com é namorar em companhia de alguém. Antigamente, nossos avós namoravam  com alguém que vigiava o namoro. Hoje, os tempos são outros. Namora-se alguém, a sós, simplesmente. Os namorados não se sentem à vontade quando namoram com qualquer pessoa na sala, no jardim etc. O bom é que estejam sozinhos; pelo menos para os namorados.  Escreve-se corretamente: Carlos apaixonou-se por Judite, por isso namora essa moça.

Houveram problemas de difícil solução – o verbo haver, no sentido de “existir”, é impessoal, ou seja, não tem sujeito e deve aparecer sempre na terceira pessoa do singular. Portanto, a forma correta é Houve problemas, sendo problemas o complemento (objeto) do verbo, não seu sujeito. A flexão indevida de haver é muito frequente no Brasil, mas nunca ocorre quando o verbo se encontra no presente, só em outros tempos. Com efeito, ninguém diria “Hão dificuldades”, mas dizem, equivocadamente, “Haviam” ou “Haverão dificuldades”. Atenção: se se tratar de locução verbal, o verbo auxiliar será afetado pela mesma impessoalidade, ou seja, deverá sempre ser flexionado no singular: Deve haver mais candidatos, Poderá haver outras exigências.  A frase inicial, depois da correção, fica assim: Houve problemas de difícil solução.

Moro naquele conjunto de casas germinadas – as casas só podem ser “geminadas”, pois a palavra é derivada de gêmeos. “Germinadas” nem pensar!

Germinar significa brotar, abrolhar, grelar, crescer, difundir-se, gerar, produzir: Os grãos germinaram nos campos. De uma boa palavra germina o bem. A leitura do texto germinou a controvérsia. A frase inicial, depois da correção, fica assim: Moro naquele conjunto de casas geminadas.

Fonte de pesquisa: Portal Tudo Sobre Concursos.

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Celso Charneca Leopoldino é graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, pós-graduação em Marketing para Executivos e MBA em Gestão Socioambiental. Fez vários cursos nas áreas de gestão social e de gestão de comunicação estratégica. Possui mais de 35 anos de experiência em comunicação empresarial, gestão social, relações com comunidades e relações institucionais.