POLÍTICA: Veni, vidi, scripsit

Eu tenho certeza de que não sou o único que já imaginou o circo como uma grande metáfora da vida. Afinal, quem nunca teve que domar um leão, se equilibrar na corda bamba, tirar um coelho da cartola ou vestir um nariz de palhaço? E ainda se valer de um rol de metáforas simplistas para começar um texto? Como aquele rapaz de fraque que, ironicamente ou não, brada do fundo de seus pulmões e de cima do picadeiro: “respeitável público”.

Só que nesse circo da vida – ou seria uma vida de circo? – o público muito pouco tem de respeitável. Assim como acontecia nas arenas romanas, em que a brutalidade corria solta, como uma analogia àqueles tempos em que a brutalidade arrancava risada, vemos aplausos estourarem a cada ato de covardia, palavra de intolerância e discursos preconceituosos. E não se trata de uma visita ao passado, mas sim de uma contínua postura desse “respeitável público”.

A quem diga: “quem tem boca vai à Roma”. Um daqueles ditados dito para nos encorajar a alcançar os lugares que desejamos. Mas, hoje, cabe uma nova roupagem: “quem tem boca xinga muito no Twitter”. Talvez um exemplo do grande circo romano que se tornou as redes sociais, em que pessoas se digladiam cotidianamente enquanto degustam ódio e compartilham intolerância. Enquanto transformam a liberdade de expressão em uma cortina que as protegem da responsabilidade dos efeitos de suas palavras.

Outros, porém, irão afirmar que deveria ser dito: “quem tem boca vaia Roma”. E, se tudo fosse correto, vaiariam a Câmara, o Senado, o Governo, o político… e não sentariam para assistir a violação de direitos – contra as mulheres, os negros, os índios, a comunidade LGBT e diversos outros grupos –, a medieval criação de lei com base em doutrinas religiosas, o eterno coronelismo na política brasileira, o abandono do pobre, e por aí vai a hipócrita indignação seletiva. A vaia é substituída pelo coro aos discursos excludentes – proferidos a torto e direito.

Hoje podemos não tomar as decisões com base em um polegar erguido ou não. Evoluímos, é claro. E é por isso que definimos o nosso espetáculo por meio do indicador pressionando o “enter”, pois, a barbárie deixou o chão batido para ganhar também as telas luminosas. Enquanto continuamos domando, equilibrando, fazendo mágica e pintando o nariz… Alea jacta est!

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A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.