POLÍTICA: Uma história de perplexidade

O jornalismo é daquelas profissões que lhe permitem fazer parte da construção cotidiana da história. Assumimos, dessa forma, a incumbência de registrar diariamente os fatos que, mais tarde, ficarão marcados nas páginas dos livros. Essa é uma das facetas do jornalismo que sempre me impressionou – e uma das razões por ter escolhido esse ofício. Porém, estamos propensos a participar de momentos que não nos orgulhamos e, certamente, não gostaríamos de ver registrados.

Assistir o atual processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) é ver um poderoso golpe desferido contra a democracia. Descontentamento sempre existirá em qualquer governo, porém, não se trata de um argumento para a retirada de um governante. Corrupção, sim. Mas esse não é o caso de nossa presidente, que, ainda, não responde a nenhum processo nesse sentido. E, sabemos, as tais pedaladas fiscais também se mostram um argumento frágil – ainda mais por serem artifícios corriqueiros em diversos governos.

O que presenciamos é, sim, um desrespeito ao voto de milhões. Um processo coronelista em que grupos políticos não aceitam a derrota das urnas e, assim, trabalham para minar um governo eleito democraticamente. Para entender isso é só olhar o trabalho do Congresso em travar pautas de interesses do governo. Um mecanismo que impede qualquer gestão de realizar um trabalho profundo. Neste momento interesses pessoais prevalecem a interesses de uma nação.

Esse jogo de interesses, inclusive, envolve a nossa mídia que não se envergonha de usar artifícios para manipular a opinião pública. Vide a seletiva publicação de informações e de denúncias. Um trabalho de desinformação que prejudica ainda mais um momento conturbado de nossa história.

A fragilidade de todo esse processo de impeachment foi transmitido ao vivo. A votação dos nobres deputados no último final de semana é, com certeza, um dos episódios mais vergonhosos de nossa história. E uma das maiores cenas de hipocrisia, afinal, como é permitido que Eduardo Cunha (PMDB-RJ) conduza esse processo? Vale lembrar que ele é um político denunciado em todos os escândalos de corrupção recente, que enfrenta ações no STF e também um processo de impeachment (mas que, estranhamente, não caminha para lado nenhum). E isso para ficar em um único exemplo, pois, se fosse relatar todos, esse espaço seria bem pequeno.

Além disso, no último final de semana, diante do olhar cínico de Cunha, assistimos deputados proferirem o sim em nome de seu Deus, de sua família e, claramente, de seus interesses pessoais. Adeus estado laico, adeus representatividade para o povo e adeus democracia.

Diante de tudo isso, esse momento, certamente, é para a reflexão. Compreendermos que por sermos ainda uma democracia recente, é necessário repensar o nosso sistema político, que se mostra extremamente danoso para o povo. E, quem sabe, possamos entender um pouco melhor esse conceito chamado democracia.

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