POLÍTICA: Um conto de gravata

O sol lá do alto brilhava intensamente. O dia estava abafado, quente, sufocante. Ele, sentado no banco de trás do carro, seguia empertigado dentro de um terno, com o sapato a apertar os pés e uma gravata enrolada no pescoço. Era preciso manter aquela imagem impecável que há tanto lutara para construir: sério e comprometido. O trabalho não era fácil, mas sem dúvida era recompensador para aqueles que o fazia “direito” – palavra tão contraditória em um meio em que nada é direito.

Há algum tempo a concorrência era menor e cada um sabia bem onde pisar. Havia algum respeito entre os pares e o bolo era melhor dividido. As coisas mudam e, hoje, combinações e poses precisam ser ainda mais amarradas. Com o passar do tempo os métodos tiveram que se sofisticar para que o “rebanho” continuasse a engolir todo o marketing. De alguma forma acordar cedo, sofrer no trânsito, estudar, trabalhar e dormir tarde deixou o “rebanho” mais esperto.

Não que isso fosse algum empecilho, mas agora as coisas estavam um pouco mais complicadas. Não a toa que alguns amigos resolveram adentrar as igrejas e se postarem como seus representantes – uma voz de Deus na política. Como se ali pudesse encontrar algum Deus. Outros partiram para a segurança: dê-lhes armas, encarcerem o máximo que puder, quanto mais truculência melhor. Como se a minha violência pudesse trazer alguma segurança para eles.

Teve quem optasse pelo agronegócio, afinal todos precisam de alguma coisa para colocar nos seus pratos. Mas desde que vindo dos grandes latifúndios. E isso ao custo do pequeno produtor, das florestas e dos rios e, claro, com boas doses de agrotóxicos. Pois um ambiente sustentável não serve de muita coisa agora. O mesmo pensamento que aqueles que abraçam a indústria extrativista têm. Vamos produzir e produzir para vocês consumirem e consumirem – e dane-se todo o resto.

E por aí vai… a atuação na Casa se tornou mais diversificada. Mas isso não quer dizer que o pensamento tenha. Pelo contrário: a cada ano que passa é mais conservador. Esqueça o direito daqueles que chamam de minoria, não vamos abrir espaço para as mulheres e “bora” enviar as pessoas mais cedo para as celas. Nada de mudar de pensamento, afinal já está bem difícil trabalhar em tempos de livre circulação de informação.

Ele continuava a encarar aquele sol quente. Pensou que talvez fosse naquelas tardes que seus companheiros tinham boas ideias. Como trabalhar com uma mídia parcial, plantar informações e meias verdades, criar ambientes instáveis e, aproveitando a livre circulação de informação, deixar que o “rebanho” por si só trabalhasse a desinformação? Ê sofisticação danada!

De repente um tranco. A porta foi aberta e o frescor do ar condicionado ficou pra trás. O sol que tanto encarava finalmente lhe beijou o rosto e, como vinha imaginando, estava bem quente. Deu alguns passos e adentrou a Casa. Deixou os devaneios de lado ao ouvir o cumprimento do porteiro: seja bem vindo, senhor Político. E lá partiu para mais um dia de difícil trabalho.

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A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.