POLÍTICA: Temer, o dono da bola, mas que não sabe brincar

Quando eu era criança tinha o hábito de ir para a rua brincar com os meus amigos. Era sempre uma farra na vizinhança. Tinha de tudo: andar de bicicleta, esconde-esconde, polícia e ladrão, subir em árvore… mas, em algum momento, a brincadeira acabaria em algumas partidas de futebol. Os gols marcados com chinelos, todos descalços e o asfalto transformado em verdadeiro estádio. E, como em todo duelo, tinha lá as suas acirradas disputas.

É neste cenário que costumávamos usar a expressão “o dono da bola”. Bastante conhecida de todos, creio eu. Mas não custa refrescar a memória daqueles que, porventura, já não se recordam. Ela era destinada para aqueles amigos que não lidavam bem com situações adversas ou até mesmo com a derrota e, de alguma forma, davam o seu jeito para acabar com o jogo. Em alguns casos, levando a bola embora – se esta, claro, lhe pertencesse.

Essa expressão nada mais é do que uma forma usada para destacar aquelas atitudes infantis. Até mesmo se tratando de uma brincadeira de criança. Atualmente, muito do que vemos no cenário político é excesso de atitudes infantis. Daquelas que dariam vergonha ao “dono da bola” da minha infância. Uma constatação triste, mas que, de alguma forma, não deixa de ter a sua graça, principalmente ao vermos a qualidade de nossos representantes.

Nesta semana, o vice-presidente Michel Temer (PMDB) mostrou que não sabe brincar muito bem. Ele, que até então estava feliz e contente com o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), ficou bastante descontente com a possibilidade de que aconteça uma antecipação das eleições presidenciais. Para ele, isso significaria um golpe. Ainda mais porque tiraria a possibilidade de que o peemedebista chegasse rapidamente à Presidência da República.

Temer não considera que o processo de impeachment de Rousseff seja um golpe. Mesmo que ele seja amparado na questão das pedaladas fiscais, artifícios já usados por outros presidentes e recorrentes em muitos mandatos de governadores e que até então era bastante normal. O peemedebista só esquece de que essa manobra foi utilizada por um governo do qual ele faz parte, ou seja, é também responsabilidade dele.

Tá certo que ele rompeu com Dilma Rousseff, mas isso só aconteceu no final de março deste ano. Quando as pedaladas fiscais já haviam acontecido, contestadas e apontadas como motivo para o impedimento. Até aí ele está conivente e ciente das ações do Governo Federal. Mas, claro, a corda só vai estourar de um lado e quem pode cair é somente a petista. E esse jogo estava bastante agradável para Temer.

Não importa se há consistência ou não, se há golpe ou não. O que vale é o PMDB ganhar o jogo. Porém, quando os ventos começam a se mostrar desfavoráveis, é hora de recolher a bola e por um fim na partida. Ah, Temer, golpe no olho dos outros é refresco… ops! Quero dizer, “pimenta no olho dos outros é refresco”.

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