POLÍTICA: Parklets para ocupação urbana

Para mim o espaço público tem apenas uma utilidade: ser ocupado. Não importa como essa ocupação vai ocorrer, desde que ela aconteça. Espalhem árvores e flores, pintem ciclovias e pistas de cooper, balancem em praças e parques, suem em quadras e skateparks e saiam pelas ruas em batuques e festejos. Oras!, a cidade é nossa e temos a obrigação de transformá-la em um ambiente agradável no qual possamos compartilhar experiências.

Mas isso é ainda muito idílico em nossa sociedade. Há alguma coisa de muito errado nessas terras brasileiras, em que o seu povo parece temer as ruas. Uma construção cultural que espreme as pessoas porta adentro e as deixa como meras espectadoras de suas janelas. A clausura parece algo tão natural – sentados em suas cadeiras de balanço observando o canário trancafiado em sua gaiola a lamentar em cantos.

O pensamento é daqueles comuns que vêm enlatados pelo botão do controle remoto. O senso que se diz comum entende que rua é pra quem tem quatro rodas, ou mais, – duas só se vierem acompanhadas de motor –; praça verde pertence a vagabundo; o ar pode se encher de poeira, mas nunca propagar o som; e a madrugada nem os gatos pardos têm direito mais. O abandono do espaço público parte da própria população que relega o seu direito de ocupá-lo.

Os parklets surgem como uma ideia interessante para a utilização do espaço urbano, de modo a favorecer as relações sociais, distribuir mais verde e criar uma nova relação com as cidades. Esse conceito de minipraças – ou miniparques, como preferir – surgiu no EUA como uma forma de substituir locais usados apenas como estacionamento de veículos por um ambiente em que as pessoas também possam utilizá-lo. O que, convenhamos, torna o espaço à nossa volta bem mais amigável.

Esse conceito chegou ao Brasil e já tem sido usado em cidades como São Paulo e Belo Horizonte. Outras começam a voltar os seus olhos para esse tipo de solução, como Itabira. Porém, essas iniciativas tendem a encontrar resistência naqueles que não entendem a necessidade de transformar as cidades em um local para pessoas. Pois é, não se assustem, carros não são a principal prioridade para um centro urbano.

É preciso, sim, repensar a forma como lidamos com as nossas cidades. E os parklets surgiram em um momento bastante oportuno, afinal toda essa resistência leva à discussão e essa, por consequência, promove a reflexão – sim, muita gente jogou essa palavrinha lá no Google. Olha que início promissor!

E não adianta vir dizer que eles ocupam vagas de estacionamento (pra quem não sabe, cada estrutura precisa de dois desses espaços), tiram passagem de pedestres (não, não tiram), que vão se tornar ponto para uso de drogas ou que comerciantes irão explorar. Tudo isso é argumento vazio. É claro que esses parklets precisam ser fiscalizados e regulamentados – e isso devemos cobrar de nossos governantes, pois as boas ideias não podem ser deixadas de lado pela inoperância deles.

Juntemos também a essas exigências um transporte público de qualidade. Precisamos, sim, de menos carros nas ruas e o primeiro passo para uma mudança cultural nesse sentido é a oferta de um bom transporte público e alternativas sustentáveis, como as bicicletas. Por isso torço para que as discussões acerca dos parklets cheguem a outro nível e continuem promovendo boas mudanças.

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A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.