POLÍTICA: Olímpíadas e futebol – pouco gol, pouca seriedade

A campanha claudicante da Seleção Brasileira Masculina de Futebol parece ter se tornado uma das principais preocupações do brasileiro. Com um desempenho bem abaixo do esperado, Neymar e Cia se tornaram alvo de debates acalorados por parte dos torcedores e de ferrenhas críticas por parte da imprensa especializada. Nada mais natural em um país que tem o futebol como um de seus principais esportes.

Tão natural quanto fazer figa e torcer pelos atletas do país nos Jogos Olímpicos, ainda mais quando um dos maiores eventos esportivos do mundo acontece em sua casa. Mais do que um conjunto de competições, as Olimpíadas são a representatividade de um espírito de competitividade e superação. Um espetáculo que, em qualquer momento, reserva grandes momentos – mesmo que você não seja grande apreciador do esporte.

Porém, o que não pode ser visto como natural é a prática adotada nas arenas olímpicas de cercear o livre direito à manifestação. Levantar cartazes, exibir faixas ou cantarolar a sua indignação se tornou um dos grandes inimigos da organização da Rio 2016 – e os exemplos de truculência contra os brasileiros  nesses casos pipocam pela internet. Em situações como essas é quase impossível não creditar essa postura extrema a uma exigência do governo interino de Michel Temer (PMDB).

Afinal, como visto na abertura dos Jogos Olímpicos, é um governo que não conta com apoio popular. A vaia recebida pelo interino Temer durante o seu curto discurso é um exemplo claro disso. E parece que isso vem preocupando o peemedebista, pois até mesmo simplórios cartazes estão condenados à fogueira. Um trabalho sistemático de calar quem se mostra contrário a um governo que a cada dia se mostra ainda mais contrário à sua população – daí a tamanha indignação que emana das arquibancadas.

Curiosamente, a postura adotada pelos organizadores da Rio 2016 vai de encontro com a história dos Jogos Olímpicos. Quem não se lembra dos negros norte-americanos fazendo a saudação dos Panteras Negras como protesto ao enorme preconceito racial que existia nos EUA. Ou a vitória de atletas negros em cima de esportistas alemães, que colocava em xeque a teoria do governo Hitler que impunha uma superioridade natural à raça ariana. Teoria fulminada pelo esporte.

Mas, mesmo com os protestos dos torcedores brasileiros nas disputas olímpicas, o evento esportivo tem contribuído como distração popular enquanto o Congresso dá prosseguimento às suas manobras. Na madrugada de quarta-feira, 10 de agosto, foi aprovado o relatório da Comissão Especial do Impeachment, que tornou a presidente Dilma Rousseff (PT) ré no processo. Uma ação conduzida sob a batuta de um governo interino recheado de políticos de índole extremamente duvidosa e de decisões ainda mais duvidosas.

O resultado dessa votação deveria estar estampado na capa dos meios de comunicação e dominando as rodas de discussões, mas o fato de grande relevância política para o país foi engolido em meio às disputas olímpicas. Mesmo com uma campanha claudicante, a Seleção Brasileira de Futebol é, sim, um assunto mais importante para o brasileiro.

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A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.