POLÍTICA: O PMDB, de Jucá, segue tripudiando do Brasil

Com suas metáforas e joguetes de palavras, os ditados populares são carregados de grande sabedoria. Logo, não é de se espantar que alguns deles retratem muito bem o momento político pelo qual o Brasil passa. Porém, de todos os ditos que escutamos ao longo da vida, aquele que talvez melhor se encaixe na atual conjuntura nacional seja: “o pior cego é aquele que não quer ver”.

Os protestos contra a presidente eleita Dilma Rousseff (PT) começaram sob a batuta de combate à corrupção – uma espécie de tolerância zero aos políticos que se apropriam da máquina pública e utilizam a sua influência para alcançar vantagens pessoais. Um discurso muito bonito se não fosse extremamente demagogo.

Não vou me alongar no relato sobre o nosso cenário político, pois de uma forma ou de outra já é de conhecimento nacional. Mas relembremos alguns fatos: o processo do impeachment de Rousseff foi aprovado após uma votação na Câmara dos Deputados onde se teve de tudo, menos garantias de que ela cometeu crime de responsabilidade; no Senado, o processo de impeachment teve como relator Antônio Anastasia (PSDB), que cometeu pedaladas fiscais durante o seu governo em Minas Gerais (assim como tantos outros governadores), porém, para ele, somente o da petista pode ser configurado como fraudulento.

Mas, nesta semana, o noticiário nacional recebeu a notícia de que uma comissão de especialistas do Senado Federal, ao realizar uma perícia, comprovou que Rousseff não cometeu as pedaladas fiscais em seu governo. Vale lembrar que a principal acusação pela qual a petista responde é justamente a de ter executado tais manobras sem a permissão do Congresso – o que justificaria um impeachment por improbidade administrativa.

Dilma Rousseff acabou afastada e aguarda o andamento do seu processo. Em seu lugar está o vice-presidente Michel Temer (PMDB), que vem adotando uma série de medidas questionáveis, retrógradas e de claro favorecimento ao seu grupo político. Porém, o que mais espanta na composição do governo interino é a quantidade de pessoas alçadas ao primeiro escalão do Governo Federal que têm sido acusadas de corrupção.

Um dos casos mais emblemáticos é o do senador Romero Jucá (PMDB-RR), que foi nomeado ministro do Planejamento, mas teve que renunciar ao cargo após protagonizar uma série de conversas em que aponta as tentativas de barrar a Operação Lava Jato – aquela de tolerância zero à corrupção – e de derrubar o governo petista. Mas, claro, parte da opinião pública e da chamada grande imprensa não considera essas manobras como golpe político. O que, no mínimo, é estranho.

As repercussões desse caso foram bem poucas se comparadas ao bombardeio midiático em cima da presidente Dilma Rousseff, que não possui nenhuma evidência clara de que tenha cometido algum crime. Jucá possui provas contundentes de corrupção, mas indignação popular e dos formadores de opinião parecem não chegar ao peemedebista. O que, no mínimo, é estranho.

Mais estranho ainda é ver Romero Jucá sendo conduzido para a 2ª vice-presidência do Senado, cargo que ocupava antes de ser ministro e golpista confesso. Ação que foi confirmada por 42 senadores que votaram favoráveis – somente sete se opuseram. Pelas regras da Casa cabe ao partido que detém a presidência fazer a indicação para o cargo. Renan Calheiros, do PMDB, é o presidente e o seu partido acredita que Jucá ainda é um quadro importante. O que, no mínimo, é estranho.

Os áudios do senador Romero Jucá são fortes o suficiente para afastá-lo do seu cargo, afinal, já se mostrou uma pessoa que não tem envergonha de usar a sua influência em prol de seus interesses. Porém, como vivemos uma época onde “pau que bate em Chico não bate em Francisco”, podemos chegar apenas a essa conclusão: “o pior cego é aquele que não quer ver”. Enquanto isso o Brasil é entregue ao que de pior existe na política.

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