POLÍTICA: O cinismo das lágrimas de Eduardo Cunha

A quinta-feira, 07 de julho, começou cercada de expectativas. A expectativa era de que Eduardo Cunha (PMDB-RJ) renunciasse ao seu cargo de presidente da Câmara dos Deputados. Era o prosseguimento de mais um capítulo da novela em que se tornou a rotina do peemedebista no legislativo federal – um misto de denúncias de corrupção, clamor popular pela sua saída e uma série de ironias lançadas em declarações e ações.

Cunha já estava afastado da presidência da Câmara desde 05 de maio, quando uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu o seu mandato por tempo indeterminado. Mesmo assim, o peemedebista passou os últimos dois meses se recusando a renunciar o seu cargo. Enquanto isso articulava para superar as inúmeras denúncias e processos no qual é acusado, inclusive um processo de impeachment conduzido pelo Conselho de Ética da Casa.

Porém, na quinta-feira Cunha mudou a sua decisão. Como em um enredo novelesco, chegou à Câmara sob os já tradicionais gritos de “Fora Cunha!”. Durante o seu pronunciamento, o parlamentar embargou a voz, marejou os olhos e se emocionou. Adotou uma postura que acreditou lhe ser conveniente: um mártir que vem sendo perseguido politicamente. Mais um personagem a ser acrescentado à galeria de atuações do deputado.

Por trás dessas lágrimas se esconde uma manobra muito maior que tenta dar forças ao governo do presidente interino Michel Temer (também do PMDB) e ainda garantir um cenário favorável para que Eduardo Cunha possa lidar – e, quem sabe, se safar – das graves denúncias que o cercam. Mais uma vez os políticos peemedebistas mostram que não são de dar passos impensados. Afinal, scripts estão aí para serem seguidos.

Por trás dessa cortina de emoções o que se vê é a oportunidade para o Planalto articular mudanças na presidência da Casa, que, desde a saída de Cunha, está nas mãos do vice-presidente Waldir Maranhão (PP-MA). O progressista tem se notabilizado em paralisar pautas consideradas importantes pela gestão Temer. Com a renúncia de Cunha, finalmente novas eleições puderam ser convocadas e na terça-feira, 12 de julho, saberemos o novo nome a ocupar a presidência da Câmara.

Além disso, o enredo se desenrola de modo a favorecer também Eduardo Cunha. O peemedebista renunciou à presidência, mas não ao seu cargo de deputado. Agora, um pouco mais longe dos holofotes, é possível que ele consiga trabalhar para manter as suas funções políticas e garantir a manutenção do seu foro privilegiado. É uma tentativa de começar a reverter um cenário que a cada dia se tornava mais desfavorável.

Afinal, a tentativa de reverter o pedido de cassação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara falhou. E sem contar que Waldir Maranhão, pressionado por deputados insatisfeitos com tudo o que vinha acontecendo na Câmara, já ameaçava votar a vacância do cargo de presidente, o que permitira a convocação de novas eleições. Uma série de situações que atrapalharam os objetivos de Eduardo Cunha.

Com a sua renúncia, além de ganhar uma sobrevida nos processos que enfrenta, o peemedebista continua mantendo a sua influência política e, junto com o presidente interino Temer, se movimenta para emplacar para a sua sucessão um deputado aliado. Assim, Cunha começa a reescrever o seu roteiro na novela política que tomou conta do Brasil – o que traz mais uma série de capítulos a se observar.

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