POLÍTICA: Não fuja à regra: dias ruins chegam pra todo mundo

Tem dias que a gente acorda com o pé esquerdo, o sabão acaba no meio do banho, o pneu do carro fura logo na saída da garagem, o ônibus quebra no meio do caminho para o trabalho, atrasa para aquela reunião importante, o café no escritório está frio e no restaurante o feijão acaba na sua vez de servir… às vezes um dia pode ser bem complicado. Talvez isso seja o Karma, aquela regrinha que insiste em nos mostrar que todas as nossas ações têm alguma consequência.

E nem precisa amanhecer para que tudo desande em uma sequência desastrosa de fatos. Afinal, é durante a noite que os pesadelos têm costume de atormentar e, na madrugada de quarta-feira, 2 de março, ele resolveu assombrar Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Naquele momento o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados aprovou o parecer prévio pela continuidade do processo por quebra de decoro parlamentar contra o peemedebista – que preside aquela Casa.

A disputa foi acirrada: 11 votos a favor e 10 contra. Foi necessário que o presidente do Conselho de Ética, José Carlos Araújo (PSD-BA), desse o voto de minerva. Mas até mesmo a menor das diferenças pode ter sérias consequências. Ou dar aquele sinal de alerta de que algumas histórias podem não acabar como é esperado. Eduardo Cunha sai fragilizado por essa decisão, mas não tanto quanto se a diferença de votos fosse maior.

Que Cunha tem bastante influência dentro do Conselho de Ética não é novidade (inclusive já falamos disso aqui), assim como é perceptível a sua capacidade em coordenar manobras evasivas para reiniciar o jogo e, ainda, se manter no poder mesmo diante das sérias acusações que enfrenta (como discutimos aqui). Mesmo com essas ressalvas, a situação é bastante desconfortável para o presidente da Câmara dos Deputados.

Assim como o Karma, existe outra regrinha de ouro por aí: “nada é tão ruim que não possa piorar”, não é mesmo, Murphy? E a quarta-feira estava apenas começando para Eduardo Cunha – o dia prometia ser longo. Foi na parte da tarde que o novo golpe veio. Seis dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) votaram favoravelmente pela abertura do processo criminal contra o peemedebista pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

A previsão é de que a votação retorne nesta quinta-feira, 3 de março, quando os outros cinco ministros darão seus votos. Há, ainda, a possibilidade de que algum dos votantes reveja a sua decisão, mas isso é bastante improvável. Caso a votação se confirme, Cunha será o primeiro de 38 parlamentares investigados no esquema de corrupção da Petrobras a se tornar réu. Realmente o presidente da Câmara teve uma quarta-feira bem complicada.

Mas ao se tratar de Eduardo Cunha é muito cedo para fazer qualquer comemoração. Reviravoltas fazem parte do seu repertório – como temos visto. Não façamos, então, como o goleiro que vê o atacante cobrar o pênalti e a bola, caprichosamente, “estourar” no travessão. O arqueiro, então, sai correndo com os braços erguidos a comemorar a vitória enquanto o seu adversário cai de joelhos, com as mãos na cabeça e lamentando o erro. Mas a bola é realmente caprichosa e, depois de subir por alguns segundos, despenca no chão e se volta para o gol. Soa o apito, o juiz aponta para o meio de campo e a decisão, bom, já não tem o mesmo fim. Tomemos a lição: não se comemora antes da hora e não se tira o olho da bola.

Comentários

A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.