POLÍTICA: Lamentemos! O golpe está dado

De acordo com o dicionário Aurélio, a palavra GOLPE pode ter, entre outros, os seguintes significados: 1) ferida, corte; 2) desgraça, sucesso infausto; 3) crise; 4) ação de uma autoridade que viola as formas constitucionais, conquista do poder político por meios ilegais. O processo que culminou, na última quarta-feira, 31 de agosto, com o desligamento da presidente Dilma Rousseff (PT) do seu cargo pode ser muito bem definido por todos esses significados.

A tragicomédia que cercou todo o processo de “impeachment” – assim convenientemente chamado para esconder sua real faceta – escancarou de maneira brutal o sistema político brasileiro: corrupto, preconceituoso, segregador e pouco representativo. Desde a votação do afastamento de Rousseff até o seu desligamento completo das funções presidenciais, vimos um processo sem fundamento jurídico válido e motivado, unicamente, por interesses pessoais.

A confirmação do famigerado “impeachment” abre uma ferida profunda no sistema político brasileiro. Expõe uma classe política motivada por interesses corporativos e pouco preocupada com as necessidades da nação. O resultado desse processo, confirmado tanto pela Câmara dos Deputados quanto pelo Senado Federal, extravasa aquilo que há anos está na nossa cara: o nosso voto pouco vale para a classe política.

Dilma Rousseff foi condenada por ter cometido as chamadas pedaladas fiscais. Uma manobra corroborada por Michel Temer (PMDB), vice-presidente que se valeu do golpe para ocupar a mais alta cadeira do país, e utilizada em praticamente todos os estados brasileiros. Muitos dos senadores que condenaram a petista realizaram as pedaladas fiscais quando ocuparam cargos de governadores – e isso inclui Antônio Anastasia (PSDB) relator do processo de “impeachment” no Senado.

Essa decisão, portanto, estabelece uma série crise institucional no Brasil. Rousseff foi considerada culpada, perdeu o seu cargo, mas, curiosamente, teve os seus direitos políticos mantidos. Se ela, então, cometeu os crimes dos quais era acusada não deveria ser impedida de voltar a ocupar postos políticos? Um atestado de que não há base legal para o seu afastamento, mas sim interesses político-partidários contrários a agenda social defendida pela petista.

Nesse caso, com a ascensão de Temer à presidência, abre-se caminho para as políticas de privatização, redução das agendas sociais, arrocho para a classe trabalhadora e mais direitos para empresários e empregadores. Uma série de medidas impopulares e que colocam em xeque todo o desenvolvimento – sobre na equidade social – que o país vinha conquistando nos últimos anos.

E tem mais: o “impeachment” não se trata de uma ação contra a corrupção. Pelo contrário, uma manobra para jogar pra debaixo do tapete o que sobra dos escândalos escancarados por operações como a Lava Jato. Dilma não é investigada, não há delações que questionem a integridade dela. Porém, grande parte dos políticos que defenderam e lutaram pelo “impeachment” respondem a processos de corrupção – e agora reencontrarão, enfim, a impunidade com a qual estão tão acostumados.

Um movimento que encontrou apoio no próprio judiciário nacional. O que só aumenta a crise institucional que o país passa e passará nos próximos anos. Uma manobra vergonhosa que leva ao poder um grupo ilegítimo e pouco interessado com o Brasil.

Aos que batem panelas, aqui registro um recado: as lágrimas ainda virão. Aguardem!

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