POLÍTICA: Entre reajustes salariais e controle de gastos públicos clamemos por coerência

Façamos um pequeno exercício imaginativo: começo este artigo analisando os jantares promovidos pelo presidente – se é que podemos chamá-lo assim – Michel Temer (PMDB) para buscar apoio aos seus projetos de lei e, de repente, descambasse a teorizar sobre os resultados da Copa do Brasil da última quarta-feira. O que acharia disso, caro leitor? Que eu estaria doido, que perdi o fio da meada ou que este texto não possui o mínimo de coerência.

Coerência, se pensarmos no universo gramatical, é responsável por dar um sentido lógico ao texto. É seguindo uma ordenação de pensamentos e argumentos que construímos uma narrativa coesa e compreensível para o leitor. Sem isso a comunicação fica comprometida e o artigo, certamente, não irá atingir o seu objetivo: transmitir uma ideia e informar aqueles que têm contato com o texto.

Porém, coerência não é um termo que se aplica apenas na gramática. Esse conceito tem aplicações práticas em nossas vidas e é de grande importância para a construção de qualquer relação. Afinal, coerência é justamente aquilo que cria conformidade entre fatos, ideias e ações – se defendo determinada ideia e me comporto de acordo com ela posso afirmar que mantenho a coerência de minhas ações, mas, por outro lado, se falo X e faço Y, então mantenho uma postura ilógica ou até mesmo hipócrita.

Exemplos de falta de coerência estão por todos os lados e basta um olhar mais atento para percebê-los. Nesta semana, a Câmara dos Deputados aprovou a PEC 241 que limita os gastos federais. Uma proposta que Michel Temer defende como necessária para equilibrar as finanças do país e permitir um desenvolvimento econômico mais satisfatório. Ao menos é isso que tem sido ventilado pela imprensa e, dizem, vendido nos jantares promovidos no Palácio do Jaburu.

Mas se vivemos uma situação tão complicada em que precisamos reduzir investimentos e controlar gastos em áreas de extrema necessidade da população, como a saúde e educação, e em outros setores estratégicos e importantes para o desenvolvimento do país, como a pesquisa, o que leva os deputados a aprovarem reajustes salariais em percentuais bem acima do índice da inflação?

Em julho o judiciário e o Ministério Público da União (MPU) foram agraciados com reajustes de 42% e 12%, respectivamente. É estimado que esses aumentos, se somados, tenham um impacto de quase R$ 2 bilhões nas contas públicas. Agora, poucas horas depois de aprovarem o teto nos gastos federais, a Câmara liberou reajustes salariais de até 37% para cinco categorias: Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Perito Federal Agrário, Desenvolvimento de Políticas Sociais e Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit). O impacto desse novo reajuste no Tesouro Nacional será de R$ 3,094 bilhões.

A população de uma maneira geral sofrerá, e muito, com a PEC 241 nos próximos 20 anos – isso se ela realmente vir a ser sancionada –, pois afetará diversos setores essenciais, mas de uma maneira geral não trata como deveria dos problemas financeiros do Brasil, que passam pela maior responsabilidade nos gastos públicos, reestruturação da Previdência, combate à corrupção, dentre outros aspectos que essa medida não leva em conta.

Portanto, temos de um lado o arrocho jogado no colo da população e, de outro, grandes reajustes com importante impacto nas contas públicas. Nessa equação o resultado é bem conhecido: a conta vai para o povo, que já paga pelos jantares de gala da presidência sem dar uma garfada. E já que não se pode provar o gosto do caviar ou limpar a garganta com um bom vinho, nos resta apenas a distração das teorias futebolísticas – mas da poltrona da sala, pois não cabe o bar nessa conta.

CLIQUE AQUI E LEIA OUTROS ARTIGOS DA COLUNA “POLÍTICA”

Comentários

A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.