POLÍTICA: Eduardo Cunha é o retrato da oposição no Brasil

Transformado em um baluarte na disputa de poder contra o governo Dilma Rousseff (PT), Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi apontado por grupos de oposição como exemplo do bom político. Foi dele a iniciativa de dar prosseguimento ao processo de impeachment da presidente da república, o que, diante de seu sorriso cínico, se transformou em verdadeiro show de horrores na Câmara dos Deputados.

Ao assumir a linha de frente no embate contra o governo petista, Cunha se transformou em uma das caras dos movimentos de oposição. Ele, assim como tantos outros, se aproveitou da míope disputa bipartidária para subir alguns degraus na escala de poder na política brasileira. E chegou bem perto de alcançar a presidência da república: se não estivesse afastado da presidência da Câmara dos Deputados seria o segundo na escala de sucessão.

Conquistou tudo isso mesmo enfrentando diversos processos políticos e judiciais. No Congresso responde por um processo de impeachment, no Supremo Tribunal Federal (STF) é réu em processo de corrupção – e foi afastado do seu cargo para não dificultar ainda mais as investigações –, e teve a sua prisão solicitada pela Procuradoria Geral da República (PGR). Já no campo político tem adotado uma postura retrógada, contrária a direitos adquiridos e que coloca o país na contramão dos avanços sociais.

Porém, o peemedebista sofreu nesta semana uma pesada derrota política. O Conselho de Ética da Câmara dos Deputados aprovou o parecer do deputado Marcos Rogério (DEM-RO) pela cassação de Eduardo Cunha. Isso depois da votação se arrastar por oito meses. Foram manobras e manobras para tentar barrar o andamento do processo, o que quase deu resultados: foram 11 votos contra 9 a favor da cassação de mandato. Um resultado bastante apertado diante de todas as denúncias que pesam sobre o presidente afastado da Câmara.

A votação no Conselho de Ética é um pequeno sinal de esperança em um sistema político viciado e tomado pela corrupção. Mas a confirmação do impeachment ainda depende de uma série de trâmites e, até chegar para votação no plenário da Câmara, muita coisa pode acontecer. Ainda mais se levarmos em consideração a capacidade de manipulação e influência de Cunha e seus aliados.

Esse histórico recente de Eduardo Cunha é, sim, o retrato dos grupos de oposição no Congresso. Cunhas, Aécios, Serras, Alckmins, Jucás, Calheiros e tantos outros se aproveitam da ausência de figuras fortes e emblemáticas que possam qualificar o discurso político para se manter no poder, mas em nada acrescentam para uma mudança profunda e significativa do Brasil. Pelo contrário, se aproveitam da rejeição e das más decisões de Rousseff para manipular a opinião pública e, assim, colocar em cheque o processo democrático brasileiro.

Em tempo

O governo do presidente interino Michel Temer (PMDB) já deu provas suficientes de que será tão retrógado e prejudicial quanto o conservador Congresso Brasileiro. Se não bastassem as péssimas decisões políticas, o grupo comandado pelo peemedebista está associado a todos os casos de corrupção que estouraram recentemente (isso falando só dos escândalos de agora). A mais nova notícia atinge diretamente Michel Temer – não que isso seja alguma novidade.

O estranho é que as imensas manifestações contra corrupção tenham, inexplicavelmente, cessado, mesmo diante das contínuas denúncias contra o governo interino e membros do legislativo. Embora não deveríamos nos surpreender diante dessa indignação seletiva, afinal, vimos uma oposição que teve como uma de suas figuras emblemáticas um certo Eduardo Cunha.

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