POLÍTICA: Carnaval e as dificuldades na gestão pública da cultura itabirana

Já é um clichê: o brasileiro gosta bem de uma festa. E, convenhamos, não podemos repreendê-los por isso, afinal, o que seria de nossas vidas sem esses momentos de alegria e celebração? Quando se trata de festa, existe uma que é imbatível em terras tupiniquins: o Carnaval. A farra momesca se aproxima e, com ela, aparecem alguns dos problemas e desafios históricos para a gestão pública da cultura itabirana.

Itabira é uma cidade que possui uma relação histórica com o Carnaval. Em sua época de ouro, a cidade abrigava bailes em clubes, desfiles de escolas de samba, cortejos de blocos e muita diversão. Toda essa diversidade cultural que criava uma identidade carnavalesca no município se perdeu com o passar dos anos. Uma perda a se lamentar se observarmos o impacto disso em na produção local.

É fato que ainda existe algumas manifestações carnavalescas na cidade. Nos últimos anos, como observados nas gestões João Izael Querino e Damon Lázaro de Sena (PV), a Prefeitura Municipal de Itabira (PMI) relegou a folia carnavalesca a um apêndice da Secretaria Municipal de Esporte, Lazer e Juventude (SMELJ), que passou a promover shows de qualidade questionável, em um local fixo e que em nada remete à história carnavalesca de Itabira.

O pior. Nos últimos anos da gestão Damon Sena, o Carnaval promovido pela PMI foi extinto sobre o pretexto de que o município passa por uma crise financeira. A decisão, que em um primeiro momento era temporária, agora parece se tornar uma medida sem volta. Em 2017, já no governo Ronaldo Lage Magalhães (PTB), é praticamente certo que o Carnaval será, novamente, “esquecido”. Faltando cerca de dez dias para folia não há nenhuma programação oficial divulgada.

Provavelmente a justificativa será a desordem na qual se encontra a PMI – que parece servir como desculpas para qualquer coisa nesse início de mandato do petebista. Ronaldo Magalhães, nesses primeiros meses do ano, questiona a herança que o seu antecessor Damon Sena deixou: pouco dinheiro em caixa, muitas dívidas e uma estrutura sucateada. Se Damon Sena realmente entregou a Prefeitura nessa situação, é certo que não deixou nenhum projeto prevendo as necessidades da população para esse início de 2017 – e, lembremos, que cultura é um item importante para a comunidade e eventos precisam de tempo para planejamento.

Aliás, Itabira tem se notabilizado pelas inúmeras rixas políticas e um descaso tremendo com a população. A cada novo mandato é feito de maneira sistemática a derrubada dos projetos criados pelo antecessor para, quem sabe, construir novas propostas a partir do zero. Coisas boas se perdem nesse processo, a cidade não avança e o desenvolvimento local fica à mercê dessa mesquinhez. E o Carnaval histórico deve ter sido perdido em uma dessas situações.

Embora o poder público peque na preservação das tradições locais e contribua para o seu sucateamento, ainda existem iniciativas populares que mantém a folia momesca viva na cidade. A associação de moradores dos bairros Campestre e Pará já promovem carnavais por conta própria, o que abrilhanta um pouco mais a nossa cidade. Além disso, projetos como o Bloco Carnavalesco Madalena não Gosta de Poema nos dão esperança de que é possível resgatar o Carnaval de rua em Itabira.

Na contramão da atuação da PMI nos últimos anos, a Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), órgão gestor da cultura na cidade, anunciou dois pequenos eventos relacionados com o Carnaval. Hoje, quinta-feira, 16 de fevereiro, às 19h, no Memorial Carlos Drummond de Andrade, acontece a abertura da Mostra Carnaval – com apresentação do documentário “Nossa Escola de Samba” e abertura da exposição “Pedaços-Memórias: Carnavais de Itabira”, que conta um pouco da história carnavalesca local.

Já na sexta-feira, 17 de fevereiro, às 17h, no Largo do Batistinha, acontece um pré-carnaval de marchinhas. A iniciativa é uma parceria entre Associação dos Moradores do Centro de Itabira (AMACENTRO) e FCCDA. Ambos os eventos são uma pílula de esperança na mudança como a cidade trata o Carnaval e como o poder público pode ser mais atuante em promover uma festa que resgate a história local e ofereça uma programação mais cultural.

Em cima dessa breve análise sobre o Carnaval itabirano fica uma reflexão maior: o desafio dos gestores da cultura local em promover a preservação da história e cultura da cidade, manter as suas tradições e, ao mesmo tempo, criar políticas públicas eficientes para valorização dos artistas e da produção cultural de Itabira. Se olharmos para o trato dado à folia momesca perceberemos que a nossa cidade ainda engatinha timidamente na sua gestão cultural.

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