POLÍTICA: A que devemos realmente protestar?

O Brasil parece não aprender com os seus erros. E também parece não querer mudar realmente a sua situação. Discussões pipocam nas redes sociais – e elas se mostram vazias e sem credibilidade –, a imprensa é parcial nas coberturas e divulgações de informações e até mesmo a Justiça parece agir de maneira bastante seletiva. Todo esse cenário é construído com base em um argumento de luta contra a corrupção, mas ninguém está discutindo o verdadeiro problema.

O sistema político brasileiro é inteiramente constituído de forma a proporcionar a corrupção e corroborar o jogo de poder. O escândalo da Petrobras escancarou o mal que é o financiamento privado de campanha, em que interesses pessoais-financeiros compram atuações de políticos com o aval da própria legislação. Se olhar a fundo irá descobrir essas mesmas irregularidades em outros setores, como o agropecuário e até mesmo nas bancadas religiosas.

A enorme quantidade de partidos políticos também é outra falha desse nosso sistema. As bases ideológicas para constituir as legendas já não existem e os políticos transitam de uma para a outra sem haver nenhuma identificação com os posicionamentos de cada sigla. Um movimento que leva em conta interesses pessoais e a insistente tentativa de se manter no poder. Com isso o sistema passa a ser uma enorme e constante negociata nas esferas políticas.

Essa mesma quantidade de partido é que dificulta a chamada governabilidade. Um presidente que não conta com a maioria no Legislativo corre um sério risco de não conseguir fazer nada durante o seu mandato, afinal, as decisões do seu governo estão subjugadas ao crivo de senadores e deputados. O que dá margem para se negociar apoio, ganhar vantagens, controlar ministérios, administrar empresas estatais e por aí vai. E na raiz de tudo isso está a corrupção institucional que já é histórica no Brasil – não, meus colegas, a corrupção não é uma invenção moderna como muitos parecem acreditar.

Uma ampla e verdadeira reforma política é o caminho para se combater de maneira eficiente esses problemas que assolam o país. E não estou falando de uma minirreforma realizada a pouco tempo que manteve, por exemplo, o financiamento privado de campanha, mas sim de mudanças sérias em toda a estrutura política do país. Mas até agora não conseguimos ver nenhuma grande proposta nesse sentido, pois é melhor escamotear o adversário, conquistar o poder no grito e manter o sistema que é confortável para todos aqueles que participam desse jogo político.

Em tempo

As reviravoltas da nossa “nova” crise política também tem mostrado uma terrível crise moral do povo brasileiro. Os gritos de corrupção e os batuques de panelas são extremamente seletivos e as manifestações já deixaram há muito de ser por um país melhor e cada vez mais se aproximam de um tremendo ódio – em que violência, preconceitos e discriminação correm solto.

Não há justificativa para aquelas pessoas que se dizem contra a corrupção, mas aplaudem ações truculentas, ilegais e seletivas conduzidas pela própria Justiça. O recente vazamento da lista da Odebrecht, o sigilo imposto a esses documentos e a cobertura tacanha da imprensa demonstram claramente a parcialidade em que todo esse processo vem sendo conduzido. E isso só não enxerga quem não quer.

A exemplo do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), que será conduzido por um Eduardo Cunha (PMDB/RJ) que também passa por um processo semelhante no Conselho de Ética na Câmara dos Deputados. Um Conselho de Ética, diga-se de passagem, composto por inúmeros deputados que respondem por processos – um tanto irônico, não?

E para deixar registrado: o impeachment de Eduardo Cunha começou a tramitar em outubro e até hoje praticamente não andou, devido à manobras realizadas por seus aliados. Já o impeachment de Dilma Rousseff nasce com maior celeridade e pode alçar à Presidência da República Michel Temer, Eduardo Cunha ou Renan Calheiros – todos do PMDB, vejam só. Tem alguma coisa de muito errada com o Brasil!

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