O Serro do Frio mostra sua força

Quantas vezes estive no chamado Serro do Frio? Incontáveis, posso responder. Até mesmo na Expedição Ronsarão e fora dela. E muito antes, quando estudava no Ginásio São Francisco, em Conceição do Mato Dentro, em plena Idade Média de minha vida. Na data recente, 18 de dezembro de 2004, o objetivo consistia em dar andamento na jornada iniciada em Diamantina no mês anterior e que vai até Paraty (RJ) e Lisboa (Portugal). Então, vamos simplificar: estamos na Terra do Queijo, em missão oficial, destinada a sacramentar o compromisso assumido pela revista DeFato com os leitores.

A história serrana não precisa ser inteiramente declamada agora. Está escrita em todos os anais de historiadores brasileiros. Na Vila do Príncipe depois Serro do Frio, uma comarca imensa, a maior de Minas, nos séculos 18 e 19, fatos marcantes se sucederam. São descobertos diamantes e ouro, fazendo com que se tornasse um importante caminho da Estrada Real. De ordem vinda de Portugal, foi criada a Casa de Fundição do Serro, para “quintar” todo o outro da região. Em 1838, o nome atual foi instituído e o seu tombamento, o primeiro do Brasil, ocorreu exatamente cem anos depois.

E a nossa missão foi acompanhada, até mesmo dirigida, por uma equipe designada pelo Departamento de Turismo da Prefeitura local. Foram três dias visitando os locais mais interessantes que sobrevivem dentro da história em toda a região. Em cada etapa, além dos monumentos tombados, da cultura preservada, do barroco que atrai a atenção de muita gente, notável é o patrimônio imaterial do lugar. Dezenas de grupos de marujos, congados, moçambiques, caboclinhos sobrevivem e brilham nas redondezas, como se tivessem sido congelados pelo tempo. Em outras palavras, pouca mudança ocorreu.

Registramos, assim, as danças dos grupos folclóricos: Samba de Roda, Maracatu, Frevo, Bumba Meu Boi, Catira, Jongo, Baião e Quadrilha. E deparamos com uma intensa movimentação de festas nos dias em que percorremos o entorno sagrado. Um dos fatos: havia uma expedição genuinamente lusitana, Portugal-Brasil, que distribuía panfletos de agradecimento, especialmente a Minas Gerais, por ter custeado todas as despesas de reconstrução de Lisboa, destruída pelo terremoto de 1755. Éramos ricos, viram?

Ainda nos dias próximos, houve a visita do ministro da Cultura na época, Gilberto Gil, acompanhado do então presidente do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha/MG), Otávio Elísio Alves de Brito. O registro interessante da festa foi inesquecível: Gilberto Gil permaneceu intocável, livre, desconhecido, solto, no meio das ruas serranas, enquanto pude fazer uma extensa entrevista com ele, em longa caminhada. No palanque da festa, fez discurso e recebeu aplausos normais. Antes de terminar o ato cívico, resolveu cantar. Aí a história foi outra: povo ouriçado, sobrou até para mim na ajuda para conter a fúria de seus fãs, alguns que subiram no palanque para tirar casquinha no grande músico, poeta, compositor e sambista brasileiro.

Serro sempre mereceu uma atenção especial de todos, embora lute, como muitos municípios históricos, para preservar as suas riquezas culturais. Sobre esse tema, o presidente do Iepha, Otávio Elísio, baixou um alerta definitivo: “Se querem fazer crescer a Estrada Real, cuidem, primeiramente, do patrimônio histórico e cultural de nosso Estado!”

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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.