O (re)contador de histórias

O tempo passa e os personagens mudam, mas algumas histórias permanecem as mesmas. E, pelo andar da carruagem, vão continuar as mesmas por um bom tempo. No mínimo ganharão uma nova roupagem: linguagem atualizada, pequenas mudanças nos cenários e, quem sabe, visual moderno pra conquistar a garotada de hoje em dia. Afinal, não é fácil concorrer contra a quantidade de super-heróis, personagens de animes e vídeo games espalhados por aí, não é mesmo?!

Ainda assim, garanto que essas histórias têm enredos que surpreenderiam o mais ávido cinéfilo ou telespectador dos desenhos animados das manhãs de domingo. Roteiros que até podem parecer inventados, mas na verdade fazem parte constante da nossa rotina diária. Reproduzidas nas páginas de jornais, eram pra causar alguma revolta ou espanto, mas acabam por ganhar aplausos.

E já que tudo parece ser um pouco de entretenimento, que tal pegar alguns novos personagens e colocá-los em antigas histórias. Um pequeno exercício literário sobre essa experiência única que a humanidade parece ser: um misto de fábula com sátira. Então, prepare-se para atualizar o seu repertório de causos e já se prepare para contar histórias um pouco diferentes – mas bastante atuais:

Capítulo 1:
Silva caminhava todos os dias por aquelas ruas. Era o caminho para conquistar o seu pão diário. Certa noite acusaram-no de roubar um telefone celular. As pessoas que passavam pela rua foram se aglomerando e cada minuto que passava o tom de voz se tornava mais ameaçador. Não havia tempo para se defender das acusações – e os acusadores tão pouco estavam preocupados em saber se tinha ou não alguma defesa. Queriam justiça, mas sem levar em consideração que a defesa faz parte do processo de justiça. Antagonismos tão comuns nos dias de hoje.

Só restava tempo para Silva cobrir o rosto para tentar se defender das pancadas que vinham de todos os lados. Indefeso se viu amarrado a um poste. E dá-lhe sarrafo. Dessa vez, não veio nenhum missionário cabeludo rogar “aquele que nunca pecou que atire a primeira pedra” – os tempos já são outros. E assim o negro Silva encontrou o seu destino. E a justiça novamente vendou os olhos de vergonha enquanto o seu nome era usado para justificar o assassinato.

Capítulo 2:
O Galo sempre se considerou bastante informado. Dominava as rodas de discussão no galinheiro: falava de política e economia como se fosse uma autoridade. Se achava um vigilante do país e estava sempre pronto pra “twittar ou postar” no Facebook a sua revolta contra as vergonhas que aconteciam na política. Certo dia ficou admirado com uma figura que vira discursando: “essa Raposa é das boas, sabe do que fala”.

E o Galo, sem pensar duas vezes, deu ouvidos à Raposa do Congresso. Ela gritava intolerância – e ponto!; gritava violência – e ponto!; gritava preconceito – e ponto! Sem dúvida a solução que as ruas precisam, com a erradicação de tudo o que há de “ruim”. (Antagonismo, mas não me pergunte o porquê, são apenas coisas desses tempos). Mas o Galo sem conseguir entender aquele discurso abraçava a Raposa como sua velha amiga. E surdo ao que acontecia à sua volta não conseguiu avisar o galinheiro do mal que se aproximava. E logo o galinheiro havia sido devorado.

Capítulo 3:
Chapeuzinho era dona de uma pequena confeitaria e diariamente ralava até tarde. Nos sábados, que sempre tirava de folga, saía para dar um rolé. Mas antes de seguir para a festa passava na casa de sua avó, onde deixava um pouco dos doces que tinha feito na semana. Sempre atenta à moda, Chapeuzinho gostava de se vestir bem e era fã de vestidos rodados e vermelhos.

Em um de seus passeios semanais percebeu que estava sendo seguida. Em uma viela mais escura o Lobo a atacou e violentou. Humilhada e agredida procurou o Caçador, responsável pela segurança daquelas ruas. De dedo enriste disparou: “ninguém mandou usar essas roupas, você quem provocou o próprio lobo”. Traumatizada, Chapeuzinho se entregou aos seus demônios. E o Caçador, ao virar as costas para a pobre menina, se tornou mais um agressor dentro de uma sociedade que banaliza a violência de gênero.

Várias outras histórias podem ser modernizadas e adaptadas ao nosso tempo. Claro que o fundo moral, tão comum naqueles casos que nos contavam quando crianças, dificilmente existirá. Afinal, vivemos tempos em que a redução da maioridade penal é mais discutida do que mecanismos para criar uma sociedade de oportunidades mais igualitárias; em que o preconceito leva o conceito de família a pertencer a uma minoria; em que o machismo ainda tem espaço; em que o preconceito de gênero, de raça, de orientação sexual ganham eco; em que representantes políticos não se envergonham em destilar ódio e preconceito; que Igrejas têm a preocupação em salvar o próprio bolso e não a “alma” dos fiéis. Antagonismos ou falta de sentido – coisas bastante comuns a esses tempos.

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A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.