O mundo é gourmet e nem a coxinha escapou

Estamos na era da gourmetização. Tudo hoje é gourmet – a palavra gourmet tem origem francesa e era utilizada originalmente para adjetivar os apreciadores e bons conhecedores de vinho. Não pense que estou falando de caviar e lagosta. A coxinha hoje não é mais salgadinho de padaria, saiu da baixa gastronomia e hoje figura entre a high society dos salgados finos. Ganhou recheios nobres como salmão, cogumelo shimeji e ingredientes adicionais à tradicional massa, como a coxinha de abóbora moranga com recheio de charque e catupiry ou a de batata baroa com recheio de camarão. E não nos esqueçamos dos recheios exóticos (se quiser substituir exótico por esquisito, fique à vontade) como a coxinha de feijoada, jaca, brócolis e ainda as versões para sobremesa com recheio de morango com Nutella e a coxinha de churros. SIM! Uma coxinha de massa doce com recheio de doce de leite envolta pela tradicional mistura de açúcar e canela.

O mesmo aconteceu com o icônico docinho das festinhas de aniversário, o companheiro das mulheres de TPM: o brigadeiro.

Se eu fosse listar a quantidade de estabelecimentos especializados nas versões gourmet do doce e a extensa lista de sabores eu precisaria de outra coluna.

Eu experimentei versões realmente saborosas, cito aqui meus prediletos: café, gengibre, capim cidreira e pistache. A questão é: podemos chamar esses doces de brigadeiro? O brigadeiro é uma receita tradicional, faz parte da cultura das pessoas e creio que o seu sucesso é justamente pela simplicidade incutida em sua composição.

– Ora, como assim você não sabe cozinhar? Mas brigadeiro você sabe fazer.

O cachorro quente de carrocinha é coisa do passado, assim como seu companheiro, o hambúrguer, que hoje são chamados de dogs e burguers. Com preços salgados (comi um burguer pela bagatela de trinta e cinco reais e honestamente tive saudade do trailler do Marrom, um amigo do meu pai que fazia um x-egg bacon de comer rezando e que me custava no máximo dez reais acompanhado de uma Coca-Cola).

Os food trucks e hamburguerias apresentam uma infinidade de combinações: blends de carnes variadas, molhos e acompanhamentos inusitados como couve frita e picles de chuchu.

Poderia discorrer por horas sobre o universo gourmet atual, desde as paletas mexicanas (picolés quadrados e às vezes recheados), passando pelas pipocas de carrocinha, os churros, as pizzas e até mesmo os tradicionais sushis, que ganharam tantos ingredientes que beiram a calúnia e difamação da cultura gastronômica oriental.

Não, eu não estou desfazendo das novas versões e nem desmerecendo o trabalho de seus criadores. As questões que eu levanto têm a ver com o limite disso tudo, o real interesse das pessoas nessas criações e principalmente a descaracterização dos pratos e suas receitas originais.

Eu, por exemplo, não concordo em chamar um doce à base de leite condensado e pistache de brigadeiro. É um doce de pistache, assim como o doce de amendoim, o doce de batata doce e por aí vai.

Um pão de queijo sem queijo é tudo, menos pão de queijo, assim como um cachorro quente com linguiça de javali e queijo emmental é um sanduiche de carne de javali e seus complementos.

Obviamente os consumidores anseiam por novidades e os profissionais enxergam uma oportunidade de lucrar com esse novo segmento.

Encontramos diversos food trucks que apostam na gourmetização das comidas de rua e dos pratos tradicionais para alavancar suas vendas.

E quando a moda passar? E quando deixar de ser novidade? Bom, aí é pauta pra outra conversa.

Sou cozinheira e, antes de tudo, amante da boa mesa, da comida bem feita e honesta na qualidade e no preço. Claro que eu também gosto de inventar e de testar, mas, prezando sempre pelo respeito às origens dos pratos e ao que é parte da cultura de um povo.

Aqui, nós esbarramos no limite, em saber até onde ir. Mexeram com a coxinha, é hora de parar.

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Kamila Duarte de Jesus ou simplesmente Nêga, como é chamada pela família e pelos amigos, traz a paixão pelas panelas no DNA. Bisneta de Raimundo Cozinheiro - cozinheiro dos ingleses que vieram para Itabira junto com a Companhia Vale do Rio Doce -, aprendeu a cozinhar ainda criança quando usava um mini fogão a lenha para preparar guisados e batatas para suas bonecas. Formou-se em Publicidade e Propaganda pelo Centro Universitário Newton Paiva por ouvir de todos que era muito criativa. A paixão pela gastronomia passou de brincadeira de criança a assunto de adulto e já atuando profissionalmente na área se formou em Cozinha Profissional pelo Senac – MG em 2014. Acredita que um bom prato de sopa até cura, que doce é um carinho na alma e que cozinhar é uma maneira de demonstrar amor ao próximo.