O Brasil também é cinco estrelas!

O cinema nacional sempre foi estigmatizado por ser de baixa qualidade. Vejo muitas pessoas dizendo: antigamente só tinha pornografia, agora os filmes só falam de coisas ruins sobre nosso país como favela, tráfico etc. Isso talvez tenha sido criado pelas pornochanchadas dos anos 60 e 70 e do grande sucesso de filmes relativamente novos como “Cidade de Deus”, “Carandiru” e “Tropa de Elite” que, diga-se de passagem, são grandes filmes. Mas nem só disso vive o “novo” Cinema Nacional.

Com maiores investimentos estatais e de algumas empresas privadas, não é difícil vermos representantes tupiniquins na disputa dos maiores festivais do mundo. Lembro a todos que em 1998, ou seja, há 17 anos, Fernanda Montenegro concorreu a um Oscar por Central do Brasil.

Poderia citar aqui uma centena de filmes nacionais merecedores de três ou mais estrelas e que são sucessos de crítica em todo mundo, mas me rendi a um filme muito recente que me encantou bastante: “Que horas ela volta?”.

Com Regina Casé (isso mesmo!) como atriz principal, o filme mostra a realidade de Val (Casé), empregada doméstica que trabalha e mora há mais de 10 anos na casa de uma rica família em São Paulo. Em um dia Val recebe a ligação de sua filha Jéssica, a quem ela não vê há mais de dez anos, informando que a garota virá pra São Paulo prestar Vestibular.

Após reencontrar a filha e levá-la para “morar” com ela na casa dos patrões, começam os problemas. A adaptação da garota à vida da mãe gera conflitos e mostra uma dura realidade vivida por milhares de pessoas: a diferença de classes.

O filme demonstra claramente a realidade atual do Brasil e, principalmente, um conflito entre a nova geração, com muito mais acesso à educação, tecnologia e a nova visão de mundo, com uma geração mais antiga, acostumada e resiliente às diferenças sociais, onde uns mandam e outros obedecem.

Val é o claro perfil de representante da classe trabalhadora dos anos 80 e 90, que muitas vezes morava nas casas de seus patrões, vivendo uma semiescravidão em que ficava 24h por conta de servir seus chefes. Dependendo do valor dos rendimentos ao fim do mês. Já sua filha Jéssica é da nova geração, com uma visão crítica mais aflorada e que não se rende facilmente aos dogmas impostos por gerações, onde é preciso obedecer calado e se subjugar aos patrões sem questionamentos. O simples fato de a garota sentar na mesa de café da manhã dos chefes é visto pela mãe como algo absurdo enquanto pra ela é algo natural, “já que é somente filha da empregada, mas não trabalha para os patrões”.

Se precisássemos resumir o filme em uma palavra seria: constrangimento. É interessante vermos como ficamos incomodados diante de algumas cenas que nos mostram Val se relacionando com seus patrões em completa submissão enquanto os mesmos a tratam com respeito, mas sempre deixando claro onde é o seu lugar. Muitas vezes nos vemos nas cenas ou será que ninguém nunca recusou um salgadinho em uma festa sem nem mesmo olhar na cara do garçom – como se ele fosse um robô com uma bandeja?

Ainda aparecem dentro do roteiro situações menores muito interessantes, como a relação de Carlos (Lourenço Mutarelli) com Jéssica. Ele a trata como membro da família, com uma proximidade que vai muito além do respeito e educação de receber e hospedar bem uma visita.

Outro ponto interessante é a relação de Val com Fabinho, a quem ela criou desde que nasceu, e que hoje tem com Val um carinho muito maior do que com seus próprios pais. Outra demonstração da visão da nova geração e da mudança de avaliação sobre a divisão de classes.

Os diálogos são magníficos e a interpretação de Regina Casé, fantástica. Vencedora do prêmio de Melhor Atriz no Festival de Sundance, ela mostra que, apesar de todas as críticas devido aos seus últimos trabalhos, principalmente na televisão aberta, ainda é uma grande atriz tornando Val uma personagem encantadora.

A montagem do roteiro e os ângulos escolhidos, sempre mostrando a visão de Val das situações, são dignos de aplauso. Muitas vezes vemos os patrões por uma câmera posicionada na cozinha mostrando nitidamente os limites que devem ser seguidos pelos empregados.

A cena de Val tentando organizar os jogos de xícaras que comprou de presente para sua patroa é digna de prêmio, assim como a cena dela na piscina ligando pra sua filha é de uma beleza que vi poucas vezes nos últimos anos. O filme é o candidato do Brasil em 2015 para a seleção de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar. Vamos torcer.

FICHA TÉCNICA
País de origem: Brasil
Ano de lançamento: 2015
Gênero: Drama
Duração: 112 min
Diretor(a): Anna Muylaert
Roteirista(s): Anna Muylaert
Elenco: Regina Casé, Michel Joelsas, Camila Márdila, Karine Teles, Lourenço Mutarelli, Helena Albergaria, Bete Dorgam

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Comentários

André Luiz é publicitário, sócio fundador da Origami Propaganda, músico e um apaixonado pelo cinema. Viciado em páginas de Design e programas de culinária, mesmo sem saber aplicar nada na cozinha. Amante do futebol, tanto no campinho do bairro quanto nos grandes estádios, e das suas companhias: o "tira-gosto" e a cerveja.