O amor nos tempos da cólera

Gabriel García Márquez que me perdoe. Duas vezes, ainda por cima. A primeira por ter me apropriado livremente nesta coluna do título de um dos clássicos de sua autoria. Em segundo por ter deliberadamente alterado o referido título – tá certo que foi apenas uma letra. Mas é aquela letrinha que no final faz toda a diferença. Por isso, de antemão, deixo às minhas desculpas registradas ao escritor.

E já que estamos nesse assunto, que tal relembrarmos do que se trata o livro “O amor nos tempos do Cólera” – e, vejam só, com a letrinha diferente – ou contextualizar para aqueles que ainda não o leram. A obra de García Márquez conta a história do amor entre Florentizo Ariza e Fermina Darza em um período em que a América Central convivia com as epidemias do cólera, doença extremamente devastadora. Essa história ainda carrega como inspiração o caso de amor entre os pais do próprio autor.

É uma pena que a beleza dessa história não seja o objetivo desta coluna hoje. Mas ainda guarda as suas semelhanças com o trabalho de García Márquez. Assim como a América Central, retratada pelo autor, também vivemos a nossa epidemia de cólera. Dessa vez substantivada no feminino para não restar dúvida quanto à interpretação: de que vivemos em um período de raiva ou ira gratuita.

A justificativa, é claro, vai encontrar raízes em posicionamentos ideológicos. Atos dos mais brutais são respaldados por crenças vazias, pinçadas em páginas na internet e reproduzidas sem uma análise e reflexão mais profunda. Puro joguete de conveniência. Ações que mostram não só o vazio cultural que parte dessa – e, porque não dizer, da última – geração passa, mas também a brutalidade que se mostra inerente a diversas pessoas. E, aí sim, uma epidemia de cólera.

Basta folhear algum jornal, assistir a um telejornal ou navegar por sites noticiosos para encontrar várias histórias que demonstram isso. São ataques gratuitos e violentos àqueles que não se encaixam no padrão heteronormativo que muitos querem impor; a violência de gênero; a marginalização do negro, do índio; o repúdio e a falta de interesse no combate à pobreza; o justiçamento pelas próprias mãos em tribunais de ruas que apenas escancaram o preconceito ainda enraizado neste país; e tantas outras questões que não caberiam neste espaço.

Situações que são percebidas em tom maior nas redes sociais, em que o ódio é destilado sob o manto do anonimato, que fornece uma pretensa proteção àqueles que ainda guardam os piores dos sentimentos dentro de si. O que se percebe é uma incapacidade das pessoas de lidarem com o diferente ou de aceitar situações que fogem dos padrões em que foram criados – e que em nada afetará a vida deles.

Toda essa intolerância acaba por obstruir os debates político-sociais e que colaborariam para criar uma sociedade mais cultural, diversa e avançada. Ainda, trava temas importantes no legislativo, ações no executivo e redireciona o país ao conservadorismo. Sem contar que cria um terreno fértil para oportunistas sempre travestidos como representantes da fé, da segurança pública, do agronegócio e de outras searas. É nesse campo que Bolsonaros, Cunhas e Calheiros encontram caminho para prosperar.

Mas ainda é possível encontrar aqueles que conseguem respeitar o diferente e trabalhar para uma sociedade mais progressista. E, mesmo que encontrem um mundo de certa forma cômodo, ainda conseguem se indignar com a injustiça sofrida pelo próximo e, assim, se posicionarem a favor de uma sociedade mais igualitária. Apesar desses tempos da cólera, ainda é possível encontrar o amor.

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A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.