MÚSICA: Talento, história e superação nas vozes brasileiras

Senhores e senhoritas, estou de volta depois de um tempinho sem escrever nesta humilde coluna! Hoje, mais do que uma coluna, vou fazer uma confissão, tentar externar a vocês um pouquinho da força que a música tem em minha vida e, com certeza, deve ter na vida de vários de vocês, caros leitores.

Na verdade, eu estava escrevendo outra coluna totalmente diferente! Havia definido um tema junto com o editor aqui do site que seria: “Os melhores discos de artistas negros nacionais dos últimos anos”. Ok! Comecei a escrever, ouvir os discos e isso foi me trazendo um sentimento tão forte que resolvi jogar tudo na lixeira e escrever da forma mais informal e mais pessoal possível.

Sempre que vou escrever aqui me baseio nos meus gostos pessoais para escolher temas, bandas, artistas etc., mas gosto também de ler críticas dos profissionais especializados para comparar com o que eu penso. Geralmente essas opiniões não me fazem mudar a minha, mas me fazem pensar e repensar muito meus argumentos aqui. Até porque são profissionais da área, e eu somente um amante da música metido a entender um pouquinho!

Lembrando o tema anterior (“os melhores discos dos artistas negros…”), fiquei muito feliz em ver que as mesmas sensações sentidas por mim foram as de muitos críticos especializados. Isso tudo me deu segurança para escrever esta coluna-depoimento.

Vamos por partes! Para esta coluna ouvi os discos: “A Mulher do Fim do Mundo”, da Elza Soares; “Nação Zumbi”, da banda de mesmo nome; “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa”, do Emicida; “Um Batalhão de Músicas”, da banda Devotos; “Convoque seu Buda”, do Criolo; e, por último, o “Minha Bossa é Treta”, da genial  Yzalú.

Ouvindo esses discos, o que vinha em primeiro lugar na minha cabeça era “espero que não acabe nunca”! Em segundo lugar tudo se resumia em uma palavra: verdade! Como é bom ver os artistas cantando o que acreditam, cantando o que sentem de verdade, sentir o engasgo na voz, a voracidade de algo real. Parece que as músicas ganham vida, se tornam seres, independente dos temas.

Ouvir Emicida cantando “Mãe” é uma luta contra os soluços porque o choro é quase que incontrolável. A referência africana em todo o disco, colocada como base para as letras ácidas e muitas vezes sociais do rapper, é de arrepiar.

Ouvir os pernambucanos do Devotos é uma aventura. Misturando hardcore, reggae e um pouco de punk, é difícil não derrubar nada tamanha vibração! O vocalista Cannibal, compositor da maioria das canções, apresenta letras de cunho social que são espelhos daquilo que viveu, vive e pensa – e à sua interpretação se junta o sotaque típico de Pernambuco.

Já Elza Soares, em seu primeiro disco de inéditas, fala para o mundo que a mulher brasileira, negra e pobre pode, sim, se tornar tão diva quanto as maiores e mais conhecidas do mundo! Com uma diferença: gritando, em cada letra, as suas angústias, revoltas e ideologias. Versos apresentados sem medo e com a cantora dando a cara pra bater. É difícil explicar o que sinto quanto ouço esse disco, só quero agradecer o tempo todo por ter tido a oportunidade de ouvi-lo.

Criolo dá uma aula com a sua música! É entrar em um universo em que a maioria do povo brasileiro vive, mas que poucos têm a coragem de expor. Com sua forma única de cantar, usando gírias e expressões das periferias de todo país, ele faz poesia de uma realidade não tão bela. Além de querer dançar igual um maluco, sinto uma tremenda vontade de pegar um papel e tentar escrever todos os meus sentimentos de forma tão bela quanto ele. Ainda bem que a lucidez rapidamente me traz de volta para que não passe vergonha. Isso é só para gênios!

O Nação Zumbi é uma banda que navega em vários mares, conseguindo algo raro: manter suas raízes e inovar, arriscar e agradar tanto os fãs do início da carreira quanto aqueles que nunca ouviram a banda. Isso tudo com um fantasma (no bom sentido) pendurado nas costas: Chico Science. Em minha opinião é a melhor banda brasileira há alguns anos, devido a versatilidade e competência que os levam a explorar novos caminhos a cada disco. É pra ouvir e não parar de cantar mais.

Por último, uma garota que conheci há pouco tempo – aliás, muito pouco tempo. Yzalú é demais! Com uma voz de dar inveja nas maiores cantoras de black music americanas, ela consegue unir a MPB, a bossa nova, o rap e o hip hop como se os estilos fossem feitos para se tocar juntos. A harmonia é de babar! Mas o carro chefe desse lindo disco são as letras, que misturam composições da própria cantora com canções de ícones da música brasileira, como o saudoso Sabotage. Assim como o trabalho da Elza, o disco da Yzalú é um desabafo, um grito que parece estar engasgado desde que nasceu. Se eu pudesse dar somente uma dica pra vocês hoje seria: ouçam “Minha Bossa é Treta”.

Finalizando, digo que essa foi uma das colunas mais prazerosas que eu fiz. Poucas vezes senti tanto prazer em ouvir discos tão bons de pessoas e bandas que se parecem na história, com dificuldades, superação, força de vontade, perseverança e, principalmente, qualidade no que fazem. É difícil entender como uma banda, como o Nação Zumbi, fica sete anos sem gravar um disco por falta de investimento e, ainda assim, consegue manter seus milhares de fãs por todo o mundo. Ainda bem que eles insistem! Ainda bem!

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André Luiz é publicitário, sócio fundador da Origami Propaganda, músico e um apaixonado pelo cinema. Viciado em páginas de Design e programas de culinária, mesmo sem saber aplicar nada na cozinha. Amante do futebol, tanto no campinho do bairro quanto nos grandes estádios, e das suas companhias: o "tira-gosto" e a cerveja.