MÚSICA: Por onde anda a cantoria?

É, meu caro leitor, se já eram tempos Temerosos após o impeachment de 2016, a pandemia do novo coronavírus (COVID-19) mudou drasticamente a forma como vivíamos. “Cidades fantasmas”, com suas ruas vazias e pessoas entocadas em suas casas, são noticiadas por todo o globo enquanto o Brasil decide ir pela direção oposta — ruas lotadas com pessoas demonstrando uma normalidade que, nestes tempos, dão um tom surrealista.

Nesse cenário, os trabalhadores da área da saúde estão na linha de frente do combate ao vírus, juntamente com os trabalhadores da limpeza. Nos bastidores dessa empreitada estão os artistas com a difícil missão de entreter, virtualmente, o público trancado em suas casas — uma metáfora ao pássaro enjaulado, que com seu canto, certamente triste, ajuda a suportar a nossa realidade.

Nunca se fez tão necessária a arte quanto neste momento. Posso apostar que está cansado de ver os mesmos rostos em casa e encarar a mesma paisagem enquanto sorrateiro bisbilhota pelas janelas da capital dos bares em busca de uma cadeira amarela, torcendo para, se avistar, não ser uma miragem em meio a selva de pedra. Não é?!

Eu, que costumava a viver em duas cidades semanalmente, reduzi minhas viagens a poucos cômodos da casa que me permito explorar. A arte, talvez, seja o que nos resta de normalidade perante este “armagedom” no qual nos encontramos. Posso afirmar que ninguém neste mundo — e isso inclui você, leitor, que se reconhece nestas palavras — está enfrentando o isolamento sem contar com um livro, um filme ou uma live do seu cantor favorito. Apesar da nítida importância da arte, o atual Governo Federal declara abertamente uma guerra contra a classe artística.

Após o então secretário de Cultura Roberto Alvim ser exonerado — isso mesmo: o antigo Ministério da Cultura foi reduzido a uma simples secretaria — por fazer uma saudação nazista, a namoradinha do Brasil, Regina Duarte, que ganhou esse apelido em plena Ditadura Militar, se prestou ao papel de substituta na secretaria, e por lá não se demorou. Agora, em meio a essa dança das cadeiras, a incerteza sobre o futuro toma a classe artística.

Esse é o resultado de um governo que acredita e teme um tal de marxismo cultural e flerta com a censura (aliás, a chamada direita brasileira precisa urgentemente se decidir: ou o comunismo domina o mundo por de trás das cortinas, tal qual um mestre das marionetes, ou se ele é um sistema falho e falido. Porque, convenhamos, os dois não dá!).

Em meio ao entra e sai na secretaria de Cultura, os desamparados artistas brasileiros dançam a valsa como podem: recorrem a lives e shows virtuais para arrecadar cachês e, quem sabe, colocar uma moedinha no cofrinho. Porém, nem todos os artistas tem seu lugar ao sol: não contam com milhares de seguidores prontos para financiar suas lives ou possuem gordos contratos publicitários.

Além disso, existem nichos onde o público não é volumoso, mas, ainda assim, a cena existe, se movimenta, se sustenta e gera renda. A arte nunca dependeu de popularidade para existir, tanto que qualidade não tem ligação com quantidade, mas a quantidade está intimamente ligada ao capital. Nem todo artista faz arte para vender ou mesmo arte que vende. Não é necessário ter sucesso para ser arte, afinal, não se trata apenas de um produto em uma vitrine qualquer à disposição de um comprador qualquer.

Assim me indago: será que a arte que se curva aos moldes do mercado é realmente mais valiosa que uma despretensiosa canção tirada ao violão em uma manhã qualquer? Parafraseando meu amigo e antigo mestre, Kristoff Silva, “fama só é bom para jogador de futebol”.

Belo Horizonte conta com uma ferramenta interessante na sua lei de incentivo à cultura, chamada Descentra. Como o nome sugere, foi criada para descentralizar uma grande fatia da verba para um único grande projeto, fracionando o valor máximo de capitalização do artista. Dessa forma, afasta os grandes projetos do edital por não ser viável financeiramente e, com isso, incentiva projetos de artistas em início de carreira.

Faço um apelo à Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, em Itabira, para que faça, assim como ela tem cogitado, o seu anual e renomado Festival de Inverno — online desta vez, respeitando o isolamento e sem esquecer de seus pequenos artistas que, ano após ano, carregaram o nome da cidade e do próprio festival.

Portanto, apoiem os artistas locais! Mais do que nunca se faz necessário tal apoio. Marconi Drummond, que era superintendente da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, em  2014, certa vez disse que a arte não se mede em cifrões. Nem só de acordes vive o músico, nem só de versos o poeta. Artistas que vivem de se apresentar na noite tomaram um baque terrível com as necessárias medidas de enfrentamento à COVID-19, como o isolamento e distanciamento social. Por isso, ideias como o Descentra se fazem tão necessárias: amortecem o golpe e abraçam a cultura. Responsabilizem-se, cuidem dos teus!

*Artigo do professor e músico Igor “Venal” Moura, também colaborador do Trem das Gerais.

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Músico, compositor e cachaceiro. Estudante e professor de música.