MÚSICA: Elza Soares – A Mulher do Fim do Mundo

Eu sempre respeitei a Elza Soares com uma das melhores cantoras do Brasil de todos os tempos. Elza sempre me chamou atenção pela escolha de seu repertório. Sendo interprete e fazendo parceria com os monstros da música nacional, ela consegue em seus 60 anos de carreira navegar por todos os estilos com a mesma qualidade. É de se espantar.

Além de artista, sempre tive admiração por Elza pela sua vida de luta. Casando aos 12 anos, tendo um filho aos treze, perdendo outro aos 15 e ficando viúva aos 18, já mostrava que teria que ser forte para aguentar uma vida de desafios.

Em sua primeira apresentação em um festival, quando perguntada de onde viera ela responde: venho da cidade da fome. Estava estampado para o Brasil a sua personalidade.

Enfrentou o preconceito quando, ainda em início de carreira, teve um caso com o jogador Garrincha, ainda casado, que posteriormente virou seu marido. O casamento foi conturbado e mostrou para Elza também o lado negro da violência e do alcoolismo de seu parceiro.

Ainda assim, Elza encantava a todos com sua voz, seu carisma, seu orgulho de ser Brasileira, Negra e Mulher. Suas músicas viravam um alto falante contra o que lhe angustiava e ela sem medo dava a cara pra bater.

Indicada muitas vezes às maiores premiações da música mundial, e com parcerias mundo afora com os maiores cantores de sua época, foi eleita em 2001 a “Cantora do Milênio” pela BBC de Londres. Era o auge?

Pra mim o auge é agora!

Elza lançou em 2015 o disco intitulado “A MULHER DO FIM DO MUNDO”. Um disco de inéditas (o primeiro de sua carreira em mais de 60 anos), que é um presente à música brasileira e um grito de indignação e de amor por toda sua história. Um dos discos mais belos que ouvi nos últimos dez anos.

É impressionante como uma artista com 60 anos de carreira consegue fazer um disco tão de vanguarda. Além das letras ácidas que falam de temas como o racismo, a violência contra a mulher, o homossexualismo e, principalmente, o seu amor pela música, que soam como um soco na boca do estômago, os arranjos são incríveis.

As músicas percorrem por caminhos da música eletrônica, do Samba, do Rock and Roll, da Bossa Nova e vai até o Rap.

Já ouvi esse disco umas vinte vezes em sete dias e sempre me surpreende. Sempre acho novos arranjos, novas leituras e, principalmente, mais alma de Elza.

Se você não conhece sua musicografia ouça esse disco. Você vai querer ouvir os outros. Se já conhece os outros, ouça esse e fique como eu: babando dias seguidos.

Ficou curioso? É só ouvirno link abaixo:

Abraço a todos e boas festas.

Comentários

André Luiz é publicitário, sócio fundador da Origami Propaganda, músico e um apaixonado pelo cinema. Viciado em páginas de Design e programas de culinária, mesmo sem saber aplicar nada na cozinha. Amante do futebol, tanto no campinho do bairro quanto nos grandes estádios, e das suas companhias: o "tira-gosto" e a cerveja.