LÍRICA IMPETUOSA: PREFÁCIO – A primeira parte da tragédia no antigo teatro grego

Ela vivia sozinha em casa e não conhecia nada do mundo, lá fora. Mas, se o conhecesse, seria uma nova fantasia. E mesmo que quisesse sair de casa e alcançá-lo, ela não poderia, pois a cidade em que vivia era afastada de tudo e de todos. Aliás, até mesmo a sua casa era tão longe da realidade do mundo em que vivemos que ela só acreditava naquilo que estava ao seu alcance, ao alcance de sua visão e aquilo que era palpável. A placa de trânsito mais próxima estava há dias de caminhada, até mesmo a cavalo. Portanto, não existia outro mundo além daquele dantes dos quilômetros em dias das placas de trânsito. Ela apenas ouviu falar, uma vez, e se esqueceu para sempre. Afinal, não havia espaço em sua memória para tamanha beleza poder ser ocupada além doutras tantas que senão tudo aquilo ao seu redor. Era isso.

O seu quintal, suas flores, seus bichos de estimação livres pelo campo, sua colheita diária, seus vestidos de chita e suas sandálias de tiras de couro que chegavam vez ou outra por um carregamento quase anual de alguém que trazia novidades para aquelas terras longínquas, era tudo. Novidades essas que passavam, despercebidas, e que só os adultos daquele local entendiam ou se faziam entender, pois render qualquer assunto seria por demais desvirtuar aquela realidade gloriosa.

Poucas palavras, muitos olhares. Poucas notícias, nenhum questionamento.

Colher minhocas e sair para pescar no laguinho, lavar as alfaces e taiobas colhidas na horta, fazer farinha da mandioca desterrada na hora, plantar e cheirar as flores de cada dia era seu ritual abençoado por Deus e sua sina. Deus esse que era cada estrela e que brilhos eram esses sem lógica no céu? Não importa! Era isso.

Cansada, de noite, como em todos os dias, depois de um bom banho na tina de cobre com água quentinha do fogão a lenha… Forrar o estômago com uma sopa de legumes variados; descansar de pernas pro ar na rede da sala, contando histórias inventadas, na hora, para si mesma, era o que de mais extraordinário se fazia fora da sua realidade rotineira, até quase cessar a luz da lamparina a óleo que anunciava a hora de ir dormir.

Ela tinha treze anos. Mas ninguém se importava e nem mesmo era importante contar os anos. Importante eram apenas os dias perfeitos e suas missões cumpridas. Um de cada vez, sem se preocupar com o amanhã.

Levantar ao raiar do sol e dormir ao se por. Colher, plantar, pescar, fazer lenha, cozinhar, se banhar, escovar bem os cabelos por quase uma hora. Levantar ao raiar do sol…

Era isso.

***

Era manhã. Ela tinha quase quatorze anos. Agachada a colher abóboras meninas, como ela, sentiu a terra tremer. Ela ainda conseguiu ver, ao longe, sem entender nada, através do horizonte, algo grande, monstruoso, aproximando-se por entre as árvores que tombavam ao seu alcance, ao seu desenrolar, cada vez mais.

O vento trouxe, antes, um cheiro muito ruim de putrefação e outras coisas indistinguíveis. Seus longos cabelos negros esvoaçavam em direção contrária enquanto se levantava para vislumbrar melhor tudo aquilo que vinha sem pedir licença, engolindo o seu mundo perfeito, até então. Um medo nunca antes sentido tomou conta do seu sangue, mas antes que pudesse se dar conta, o mundo escureceu.

Essa história termina aqui.

POSFÁCIO

Ela não viu helicópteros, ela não viu bombeiros, ela não viu populações revoltosas. Ela desconhecia um resgate, ela desconhecia uma tragédia…

…ela desconhecia solidariedade.

Ela desconhecia política, lucro, ganância…

Vivemos felizes por ela, muito mais por não conhecermos a sua história do que por não percebermos o seu mundo acabar. E seguimos felizes por sabermos que nem ela percebeu tamanha tragédia.

Nada mais era importante depois que aquela barragem longínqua se rompeu.

Laz Muniz,
Noite febril, chuvosa e tempestuosa, de novembro de todos os anos

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Laz Muniz cultiva trepadeiras em arranha-céus e cria marimbondos debaixo do travesseiro. Cozinha para si mesmo (Ainda bem que a comida do seu cachorro já vem pronta, lhe poupando algumas horas de vida). E por falar em vida, faz desenhos para viver só porque não sabe fazer forcas e guilhotinas, o que seria muito mais rentável. Mas, quando criança, aprendeu com a doméstica da casa da sua avó a fazer um bodoque de galho de goiabeira e câmara de ar de pneu de bicicleta que é uma maravilha! Se define como escrevinheiro de mariolas ou desenheiro de escrivinhações. Ou seja, um Iluscritor. Facebook: http://facebok.com/lazmuniz Instagram: http://instagram.com/lazmuniz Twitter: http://twitter.com/lazmuniz Blog: http://lzmz.blogspot.com