LÍRICA IMPETUOSA: O Isqueiro Rosa

Geralmente, quando chove, as pessoas tendem a virar açúcar. Se tem uma coisa que muito me incomoda é o fato de carregar um guarda-chuva. Mas, não, eu não sou de açúcar e, dependendo do nível da água, me agrada muito a ideia de caminhar para me molhar. Nada que uma cabeça fervilhando ideias constantemente não agrade que uma garoa não possa refrescar ainda mais.

Mas foi ontem à noite, depois de um longo temporal, ainda em meio àquela água fina, que resolvi sair sozinho a caminhar bem lentamente pela cidade, parar em algum lugar tranquilo, me sentar, pedir uma cerveja e ler um livro (carrego dez livros debaixo do braço, mas não carrego o maldito guarda-chuva!).

Tranquilidade é o que não falta no interior, durante estiadas. E você chega ao bar de sua preferência e percebe que é só você e os garçons e aquela péssima música que nunca condiz com o ambiente. Sempre naquele momento em que o proprietário não se encontra. Mas, como cliente único, pede-se para trocar como num dos itens do menu. E eu sabia que se o bar enchesse a música ruim ia voltar e eu me trocaria de bar.

Sentei-me na primeira mesa do deck, na calçada, virado pra avenida de frente ao bar, pedi uma cerveja bock, azeitonas, palmitos e queijo, abri o Eles Eram Muitos Cavalos do Luiz Ruffato, já nas últimas páginas, onde havia parado. Comecei a ler antes que a bebida e a porção chegassem à mesa. Por cima dos olhos só via as luzes amarelas embaçadas de alguns postes e, de vez em quando, alguns carros passavam pelas poças formadas no asfalto sem ao menos pestanejar para levantar toda aquela água para todos os lados molhando alguns poucos transeuntes. E ali fiquei, concentrado naquelas primeiras linhas do penúltimo capítulo “merda, amanhã compromissos, freio do carro, óleo, do you wanna dance?, festinha, maria aparecida albino, loura, cara de sono, sol quente, chácara, monte de areia (…)” quando chegou a garçonete, bastante mau humorada, e colocou a porção e a cerveja na mesa sem ao menos me servir o copo ou perguntar se eu queria mais alguma coisa. Mesmo assim agradeci e não obtive resposta, se retirou como quem estava a fim de encerrar a noite e fez de tudo para que eu percebesse. Ignorei seu dia ruim e antes que eu me servisse ou voltasse os olhos para a leitura, ela entrou. Não, não a garçonete…

Ela entrou sozinha, no bar. Passou por mim. Não pude deixar de admirar, por cima do ombro. Era alta, magra, cabelos cacheados, um pouco ruiva, mas percebia-se a tintura. Escuros, talvez, analisando por suas sobrancelhas. De vestido curto azul escuro, uma sandália baixa, um relógio prata, pouca maquiagem, uma pequena bolsa de mão.

Sabia, naquele momento, que eu não conseguiria mais ler com tranqüilidade, não só porque ela se assentou sozinha numa das mesas, mas por saber que, para qualquer pessoa que chegasse àquele bar e se sentasse, eu estaria de costas. Então me levantei e fui até o balcão, pedi, finalmente, que trocassem a música – por favor – pois estava me incomodando aquela batucada ilógica para o momento. Caetano Veloso. Era só um pretexto para retornar à minha mesa e me assentar de costas para a rua, voltado para o bar e para… ela!

Respirei fundo. Ela não perceberia minha troca de cadeiras proposital, pois estava sendo atendida pela mesma garçonete de mau humor. Coloquei o livro bem próximo aos olhos (geralmente leio há uma boa distância da visão) e dei um gole da cerveja. O segundo gole. Ela tirou da bolsa o celular. Imaginei que não mais o largasse e seus dedos não mais parassem de teclar, compulsivamente. Mas o deixou de lado, ao lado das chaves do carro e um maço de Free Light com um isqueiro cor-de-rosa em cima.

Era indiscutivelmente linda. Em cidades do interior, geralmente, você conhece as pessoas do dia a dia, até mesmo nas noites, como numa rotina; trivialidade, cartas marcadas. Mas ela, não. É a primeira vez que a estava vendo e ali, na minha frente, sozinha… Ou esperando alguém. Estava tensa, olhava constantemente para o celular. Eu não faria nenhuma bobagem, claro. Poderia ir até lá, me apresentar, oferecer mais uma cerveja após aquela, talvez ela me convidasse para se juntar à sua solidão, mas não. Preferi ficar só na ilusão, me concentrar no meu livro e só sair dali quando percebesse que a noite nada prometeria senão apenas mais uma noite.

Ela tirou um cigarro do maço, pegou o isqueiro rosa para acendê-lo. Falhou quatro vezes. Ela o sacudiu. Funcionou. Ajeitou-se melhor na cadeira, livre e confortavelmente, apoiando o braço com que estava o cigarro na cadeira vazia ao lado. Cruzou as pernas. Deu um gole na cerveja. Olhou para o celular, relaxou. Olhou para mim. Olhei pra ela, voltei meu olhar para o livro. Mas percebia que ela ainda estava olhando para mim. Olhei de novo, ela voltou os olhos para o celular.

Relaxei, me abstraí da situação e consegui acabar de ler o Ruffato, um dos meus cronistas preferidos. Deitei o livro na mesa, bebi, olhei para o tempo lá fora. A chuva havia voltado com mais intensidade. A cerveja dela já estava quase no fim. Me veio, novamente à cabeça, a ideia de lhe oferecer mais uma bebida em troca de um bom papo sobre o tempo, quando aquela moça linda se levantou, juntou suas coisas, foi até o balcão, pagou a conta em dinheiro. Ao sair, deu uma última olhada em meus olhos. Olhei também, sem medo. Pus-me a admirá-la dando as costas e indo embora, já debaixo da chuva. Quando me dei conta, ela havia esquecido o isqueiro rosa em cima da mesa.

Pensei – como todo homem pensaria – que ela havia deixado de propósito. Me levantei rapidamente, peguei o isqueiro, dei alguns passos largos até a moça, que já estava entrando em seu carro e a chamei, “moça!”. Ela se voltou surpresa com um leve sorriso e uma leve desconfiança e um leve “oi?”. “Você esqueceu seu isqueiro”, já esticando as mãos para lhe devolver, quando ela me devolveu a resposta: “ah, pode deixar! Acabou o gás!”

Entrou no carro, arrancou, fiquei ali, com o isqueiro rosa na mão.

A chuva começou a engrossar. Voltei para a mesa. Nada mais para ler. Outra cerveja, um livro terminado e um isqueiro vazio. Apenas mais uma noite.

Acabou o gás!

Laz Muniz
Amante (desastrado) hors concours.

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Laz Muniz cultiva trepadeiras em arranha-céus e cria marimbondos debaixo do travesseiro. Cozinha para si mesmo (Ainda bem que a comida do seu cachorro já vem pronta, lhe poupando algumas horas de vida). E por falar em vida, faz desenhos para viver só porque não sabe fazer forcas e guilhotinas, o que seria muito mais rentável. Mas, quando criança, aprendeu com a doméstica da casa da sua avó a fazer um bodoque de galho de goiabeira e câmara de ar de pneu de bicicleta que é uma maravilha! Se define como escrevinheiro de mariolas ou desenheiro de escrivinhações. Ou seja, um Iluscritor. Facebook: http://facebok.com/lazmuniz Instagram: http://instagram.com/lazmuniz Twitter: http://twitter.com/lazmuniz Blog: http://lzmz.blogspot.com