LÍRICA IMPETUOSA: My favorite things

Não é comum me ver por aí. A música ambiente me incomoda. O som da minha vida ecoa dentro da minha casa, à minha maneira, como todos gostariam que fossem para cada um de si. Sou daqueles que senta no bar e, se a música é ruim, me levanto e vou embora ou troco de bar. Sou daqueles chatos que reclamam com o garçom sobre o repertório. Sou daqueles que antigamente frequentava bares com os amigos e cada um levava consigo um CD para compor a música da casa. Nossa playlist enlatada vinha em vários estojos plásticos debaixo do braço e dividíamos o prazer pelo ambiente onde, obviamente, todos se lambuzavam do mesmo conceito musical (dos clientes ao proprietário). Mas isso acabou, tanto quanto ver leitor de jornal folheando tamanho standard desajeitado de páginas e as dobrando para trás e para frente, de um lado para o outro para continuar sua leitura, coluna após coluna. Vieram os pendrives pra facilitar tal desconforto do prazer e, posteriormente, nada mais. Todos os bares já têm suas playlists musicais padronizadas ou, em sua maioria, estritamente fora de padrão algum.

Não sou eclético. Mas também não sou de tudo radical. Sempre achei que ecletismo é falta de personalidade, e não bom senso. Nunca comprei um disco por causa de uma única música, assim como não se compram livros por causa de uma única citação do autor.

Quando falo de música ruim não falo de estilo musical, mas de música mal feita, mal interpretada, mal composta, mal estruturada, mal escrita, mal tocada. Ou seja: 90% do que existe no planeta e faz parte do paladar geral. E o que é ruim incomoda, baixa o clima, dói na alma, zune no ouvido como mosca moribunda no vidro do basculante tentando achar a saída, desesperadamente e – o que é pior – insistentemente.

Saí pra tomar um café fora de casa, essa manhã, numa padaria e lanchonete do centro da cidade. Geralmente não ouço músicas em padaria. Parou um carro na porta, as seis e trinta, e o som estava um pouco alto para o horário e a vizinhança local. Mas, para minha surpresa, tocava My Favorite Things, de John Coltrane. Aliás, uma das minhas músicas preferidas de todos os tempos. Pensei, cá com os meus botões, que “o cara tem bom gosto”. Rapidamente criei na minha cabeça o estereótipo da figura que sairia de dentro daquele automóvel. Um senhor de meia idade ou um pouco mais, de bermuda cáqui, camisa de algum time de futebol europeu, sandálias de tiras de couro ou tênis esportivo, óculos escuros e um maço de marlboro e um isqueiro zippo junto à carteira e as chaves do carro em uma das mãos. O típico pai de família das propagandas de banco, de férias, passando uma temporada com a família da esposa no interior mineiro.

Claro que essa alusão estereotipada é pura ironia perversa da minha parte. Continuei achando o volume um pouco excessivo, mas estava por demais encantado com My Favorite Things àquela hora. Foi quando ela bateu a porta e veio em direção ao balcão, pediu dois pães franceses, cem gramas de muçarela, duzentos gramas de pão de queijo, um suco de caixinha de laranja e maçã, agradeceu, não me viu, pagou, entrou no carro com o mesmo semblante com que entrou e arrancou.

Devia ter menos do que uns trinta e dois anos. Não consigo descrever mais. Não se engajava em nenhuma figura estereotipada das minhas ironias. Era bela, apenas. Ouvia John Coltrane pela manhã. E isso a deixava ainda mais.

Hoje, a música ambiente foi perfeita. Não me incomodou em nada. Vivenciei a trilha sonora da minha vida como num conto de fadas. Nunca corri atrás de nenhuma princesa encantada como as adolescentes procuram por seus príncipes, mas hoje eu pensei que a havia encontrado. Minha playlist do resto do dia foi John Coltrane. O bom gosto estava no ar, nada está perdido.

Apenas ela…

Por onde, diachos, anda essa mulher!?

Laz Muniz
Amante Platônico desastrado

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Laz Muniz cultiva trepadeiras em arranha-céus e cria marimbondos debaixo do travesseiro. Cozinha para si mesmo (Ainda bem que a comida do seu cachorro já vem pronta, lhe poupando algumas horas de vida). E por falar em vida, faz desenhos para viver só porque não sabe fazer forcas e guilhotinas, o que seria muito mais rentável. Mas, quando criança, aprendeu com a doméstica da casa da sua avó a fazer um bodoque de galho de goiabeira e câmara de ar de pneu de bicicleta que é uma maravilha! Se define como escrevinheiro de mariolas ou desenheiro de escrivinhações. Ou seja, um Iluscritor. Facebook: http://facebok.com/lazmuniz Instagram: http://instagram.com/lazmuniz Twitter: http://twitter.com/lazmuniz Blog: http://lzmz.blogspot.com