LÍRICA IMPETUOSA: Mitridates

Há algum tempo não bebo refrigerante algum. Portanto, acabaram-se os estoques de garrafas pet aqui em casa. Elas eram a alegria do Pancho, meu labrador. A sua “bolinha” de diversão diária. Claro que depois dela eu comprei várias outras bolinhas de borracha e ele custou a se acostumar com elas, pois não faziam o barulho tão estridente de que ele adora, nas garrafas. Barulho e bagunça é com ele mesmo, apesar de ter um comportamento tão sociável e pacifista que até assusta. Depois disso, custei a encontrar bolinhas que ele não conseguisse comer e não fizesse cocôs que continham pedaços coloridos, não digeridos, de borrachas fluorescentes.

Senti que, com o fim das garrafas pet, ele vem agindo de forma estranha. Adquiriu alguns cacoetes. Agora conversa sozinho e mexe os músculos do focinho como se estivesse sorrindo. Quando vejo essa cena confesso que me dá uma leve sensação de pânico, como aquelas de quando vemos fotos onde aparecem fantasmas, ao fundo. Não é nada divertido viver sozinho numa casa junto com um cachorro, acordar de manhã, abrir a porta e vê-lo sorrindo pra você, sem saber porque está fazendo isso, como se estivesse possuído. Possuído por um cacoete.

Porém, com o fim das bolinhas de garrafas pet, consequentemente menos exercícios, mais ócio e a obesidade. Afinal, seus exercícios físicos radicais eram as pets. Porque as bolinhas de borracha só são mais legais pra morder e comer. Elas quicam, olha que coisa sem graça. Garrafas fazem barulho, amassam, fazem mais barulho, “incomoda meu dono, eu corro com elas na boca e as arrasto casa afora, chama a atenção dele, ele vem me xingar: pelamordedeus, para com essa zueira!”. E bolinhas de verdade rolam e, como um cão preguiçoso, esticar a pata para alcançá-las não tem a mínima graça. Elas não são eloquentes.

O Pancho já é quase um Sancho. Até algumas pessoas já confundem o seu nome ao vê-lo se levantar para dar a patinha. Parece um esforço sobrenatural tanto quanto o seu sorriso de canto a canto de orelha.

Mas, há alguns dias quebrei minha regra de saúde e comprei uma garrafona de refrigerante. Pancho não acreditava no que via. O sorriso saiu de sua fuça e tornou-se uma expressão do tipo: uaaauuuuu!!! uiah!!! legaaalll!!! Bolinha! Bolinha! Bolinha! Bolinha! Bolinha! e um entusiasmo frenético de tentar saltar, pular e correr por três metros com a garrafa na boca, se divertindo, sem se cansar. Seu esforço sobrenatural, sobrecanino, se extinguiu de vez e toda energia necessária veio à tona.

Por fim, um cachorro gordo que pulou por cinco minutos sem parar, de tanta felicidade. Esgotado, morto de cansaço, escorado num cantinho do quintal abraçado com seu brinquedinho de causar emoções como se tivesse atravessado a nado o Canal da Mancha e um coraçãozinho mole batucando a mil por hora de amores e taquicardias sonhava aliviado cheio de novas esperanças: bolinha, bolinha, bolinha, bolinha!

No outro canto da casa, eu me contorcendo feito uma minhoca rastejante, por horas, agonizando por causa de uma azia monstruosa. Acho que não volto a beber refrigerante mais, não vale à pena! Mas arrumarei mais garrafas de veneno engarrafado – ao menos vazias – pra felicidade do meu fiel amigo.

Valeu a primeira dose do teste de mitridatismo.

Laz Muniz,
adestrador infalível das vias estomacais

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Laz Muniz cultiva trepadeiras em arranha-céus e cria marimbondos debaixo do travesseiro. Cozinha para si mesmo (Ainda bem que a comida do seu cachorro já vem pronta, lhe poupando algumas horas de vida). E por falar em vida, faz desenhos para viver só porque não sabe fazer forcas e guilhotinas, o que seria muito mais rentável. Mas, quando criança, aprendeu com a doméstica da casa da sua avó a fazer um bodoque de galho de goiabeira e câmara de ar de pneu de bicicleta que é uma maravilha! Se define como escrevinheiro de mariolas ou desenheiro de escrivinhações. Ou seja, um Iluscritor. Facebook: http://facebok.com/lazmuniz Instagram: http://instagram.com/lazmuniz Twitter: http://twitter.com/lazmuniz Blog: http://lzmz.blogspot.com