LÍRICA IMPETUOSA: Ímã dos malas

Malucos belezas, bichos grilos, junkies, pedintes, o chato da mesa ao lado, o homem do saco, vira-latas, cocô de passarinho… Todo mundo deve ter a mesma sensação e já ter passado pela mesma situação uma, duas, várias vezes. A de ser o ímã dos malas!

É noite de sair com os amigos e festejar o fim de ano. Sentar à mesa do boteco, na calçada, e bebermorar! Tudo está indo muito bem até você avistar ao longe, do outro lado da rua, aquela figura estranha. Então você não dá muita ideia, mas como um bom observador, percebe que o doidão tá atravessando a rua e vindo em direção ao bar. Existem, no local, umas 30 mesas, umas 300 pessoas, todos cultivando seu ar da graça em meio a comes e bebes e papos agradáveis à luz daquele luar maravilhoso e o clima ao seu redor está de paz e tranquilidade, até você comentar com o amigo ao lado, “quer apostar quanto que aquele sujeito vai nos fazer uma visitinha?”. E nem assim, comentando o fato, numa tentativa de driblar a Lei de Murphy, o intrépido transtornado pelo álcool e exalando suor, urina e cachaça deixa de reconhecer as trezentas possibilidades vigentes e vem exatamente em sua direção. Todos dão as costas, claro. Fingimos não ser conosco. Sabemos que ele não quer comer, não quer dinheiro pra passagem, não quer salvar a mãe no hospital, não há nenhuma necessidade real de urgência em sua vida senão a mesma atenção que todos estão tendo e se dando e compartilhando naquele momento festivo, ou tantos outros. Talvez mais uma cachaça. Mas, não… Apenas atenção. Ser notado. Provar que existe. Nada mais do que a necessidade do amor, de uma troca de sorrisos, de se fazer entender, de passar suas mazelas à frente, talvez. Assim, ele insiste e toca meu ombro. O clima abaixa, todos se calam, se entreolham, olham para o gajo e ninguém consegue expressar algo de diferente senão a mesma indiferença em comum. Não por quererem isso, mas por acharem que não é o momento (e quando seria?) ou por, talvez, sermos as pessoas ideais para estar diante daquele cara, naquele momento, naquele local, onde as tristezas ficam de lado e as alegrias se tornam bobagens fúteis para a mesa de boteco, afim de sairmos da realidade do dia a dia. Mas a realidade tocou no meu ombro, com sua mão calejada e áspera e uma nódoa preta por baixo das unhas. Por que eu, penso comigo? Então você já dissimula uma desculpa para a falta do óbolo “não tenho nada, companheiro, estou pagando tudo no cartão”, antes de expressar qualquer palavra até que você o olha por trás de toda aquela barba engomada e “umas duas toucas na cabeça” e ele diz, sorridente: “Hoje é um dia muito importante para todos nós e eu estou muito feliz em ver todos vocês reunidos aqui, comemorando”. Um leve sorriso toma conta de todos, ainda que sem jeito, já esperando a hora do assunto baixo-astral ou do pedido de cachaça – o que não nos custaria nada colaborar com sua vontade, ainda mais naquele momento de comemoração e farra, afinal estávamos todos ali para isso mesmo, para nos embebedar e curtir a noite, o momento – e ele continua (não mais com as mãos em meu ombro): “Não há nada que me deixa triste nesse mundo, nem mesmo a vida que levo, pelas ruas. E nas noites vejo as pessoas mais bonitas reunidas e sorrindo”. Findam-se as tensões e nossas atenções se voltam para as palavras daquele homem que não devia ter seus quarenta anos, apesar de aparentar muito mais, e o interesse geral continua: “Então eu os vi de longe e queria apenas deixar minha alegria com vocês”, num português impecável por entre a falta de vários dentes, gesticulações embriagadas e a falta de balbucios. “Agora deixem-me ir. Não quero atrapalhar a noite de ninguém. Só quero desejar-lhes um feliz ano novo e que a vida só lhes dê alegrias!”

Alguém na mesa chama o garçom e pede: “Dá uma cachaça pra esse moço, ele merece!” E eu penso: “Agora que ele não vai embora, mesmo!”, quando o homem das ruas retruca: “Não, obrigado, menino. Fico agradecido, mas hoje brindei com meus anjos e já está na minha hora de dormir. Na paz!” Se vira e segue seu caminho, quando aparecem uns sete vira-latas que já estavam por ali e ninguém havia notado e o acompanham até o outro lado da rua, onde ele estica alguns papelões, se ajeita, se cobre com algumas mantas e parece dormir. Eu continuei observando-o ainda por um tempo, em pé, com meu copo de cerveja na mão, enquanto todos já estavam em outra atmosfera fora da realidade.

No fundo, não atraímos essas pessoas para perto de nós quando não as queremos por perto. Não somos nós os “ímãs dos malas”. Eles se sentem atraídos pela nossa presença. Não estamos em nossas casas, estamos no mundo, no lugar qualquer, onde eles também estão. Somos um todo, uma só energia.

Maldito seja o nosso preconceito!

Laz Muniz
Pequeno monge guru das montanhas do Himalaia.

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Laz Muniz cultiva trepadeiras em arranha-céus e cria marimbondos debaixo do travesseiro. Cozinha para si mesmo (Ainda bem que a comida do seu cachorro já vem pronta, lhe poupando algumas horas de vida). E por falar em vida, faz desenhos para viver só porque não sabe fazer forcas e guilhotinas, o que seria muito mais rentável. Mas, quando criança, aprendeu com a doméstica da casa da sua avó a fazer um bodoque de galho de goiabeira e câmara de ar de pneu de bicicleta que é uma maravilha! Se define como escrevinheiro de mariolas ou desenheiro de escrivinhações. Ou seja, um Iluscritor. Facebook: http://facebok.com/lazmuniz Instagram: http://instagram.com/lazmuniz Twitter: http://twitter.com/lazmuniz Blog: http://lzmz.blogspot.com