LÍRICA IMPETUOSA: Desabafos de um aracnofóbico

Morávamos no décimo sexto andar de um prédio e mamãe sempre dizia “bate o sapato no chão e confere dentro dele antes de calçar, pode ter aranha ou escorpião!”. Até então eu entendia que poderia ter mesmo, já que eu era uma criança inocente que nasceu no interior e viveu na capital uma boa parte da juventude. Mas depois comecei a pensar melhor nas possibilidades de aranhas e escorpiões subirem tão alto, mas por fim acabava concordando com a ideia, já que os pernilongos subiam de elevador e até mesmo pela escada de incêndio.

E foi nessa época que nos mudamos para uma casa enorme com um jardim enorme e uma área enorme e muitas flores e frutas e bichos – depois de muitas mudanças –, logo ali pertinho do zoológico de Belo Horizonte, na Pampulha. E essa bicharada começou a me perseguir a partir daí. Não, não falo de crocodilos, elefantes, macacos, girafas e tartarugas do zoológico, mas de aranhas hospedeiras em nossos lares.

Eu brincava com meu irmão no jardim e nossa bolinha de baseball quicante se escondeu em um arbusto, e lá fui eu, empolgado, buscá-la pra continuar a brincadeira. Enfiei aquela mãozinha minúscula de criança de cinco anos por entre os galhos e folhagens e toquei a bola. Voltei com a conquista na mão, sem maiores dificuldades e, em cima da mão, ela!!!

Acho que para uma criança de cinco anos uma arainhazinha deve ser um dinossauro e a picadinha foi dolorosa e terrível. Uma tragédia!

Meu trauma seguido de uma aracnofobia começa aí.

O pânico que um aracnofóbico tem dos aracnídeos nem sempre é pela picada do bicho, pela dor, pelo veneno, pelo mal que ele possa causar. O meu maior pânico sempre foi com a forma estética da aranha. Aquele ser octopernal com andar minucioso e malicioso gingado (pasmem! A dança italiana tarantela foi dada em homenagem a elas, pois pensava-se que o veneno era mortal e para se livrar dele era preciso dançar) e que pode correr como um relâmpago ou desengonçadamente; que pode medir até 26 centímetros de pata a pata esticadas e podem comer pássaros; fazem parte de todo tipo de filme de terror como um ser maligno, traiçoeiro, anti-social.

E os anos se passaram e a cada mudança de casa e cidade em minha vida acabava sempre caindo naquela que tinha grandes jardins floridos. Numa dessas, vivi boa parte na casa dos meus avós, onde as flores e plantas ornamentais faziam parte não só da decoração, mas do ofício. E lá vamos nós mais uma vez convivendo com os malditos aracnídeos.

Há sete anos, já levando minha vida de adulto e suas escolhas, acabei me mudando para uma casa aqui no interior de Minas e, para minha total falta de surpresa, rodeada por um imenso quintal, com muito mato, árvores, mato, bananeiras, mato, jabuticabeira, mato, laranjeira, mato, amoreira, mato, cerejas, mato, lichias, mato, acerolas, mato, macacos, mato, jacus, borboletas, passarinhos, beija-flores, abelhas, zangões, mato, mato, mato, mato, mato e elas, as tarântulas gigantes monstruosas míticas do bairro da Penha, em Itabira.

O excesso de detalhes repetitivos foi para designar que para um aracnofóbico conviver com aranhas não é nada fácil. Digamos, até impossível! Mas pela consequência do destino daquele momento, caí bem no meio da teia. Uma casa simples, lindinha, agradável, bem localizada, tranquila, que foi o ninho de reprodução da espécie aracnídea enquanto ninguém habitava esse lar, antes deu adentrá-lo.

E foram-se longos três a quatro anos convivendo com monstros internos e externos que me atormentavam e apavoravam dia e noite com suas travessias intensas, quase diárias. Puxava uma cadeira, uma caranguejeira, sentava no sofá, outra. Abria o armário, lá estava ela. Acordava de manhã, ela estava no teto me observando dormir. Retirava roupas sujas do cesto para lavá-las, vinha junto uma intrometida. Chegava em casa à noite, já havia recepção de boas-vindas. E a vida ia acontecendo quase que normalmente entre sustos, pânicos e vassouradas, muitas vassouradas e ansiedade e suor frio e febre e estados de choque e delírios e pedidos de socorro e namoradas frias calculistas assassinas de aranhas que entendiam bem de massacres e eu entendia bem de matar ratos e baratas, em troca de suas gentilezas.

Foi quando descobri que para uma tarântula chegar a ter esse tamanho colossal todo demorava de dez a quinze anos e até vinte! Os machos vivem menos, uns sete anos, mas as fêmeas são duronas e são elas quem nos visitam em dias de chuva e reprodução, caçando seu par ou fugindo de predadores ou tocas encharcadas. Ou, claro, simplesmente querendo o seu espaço de volta, o meu lar.

Não aguentei. Comecei, pela primeira vez, a pesquisar muito sobre e até mesmo a me simpatizar com sua árvore genealógica de duzentos ovos a cada reprodução. Mas até então eu já havia matado quase todos os exemplares da espécie em torno da minha casa e já não havia mais reproduções. Hoje em dia talvez apareçam três ou quatro ao ano.

A minha conclusão, no entanto, não é de que elas pararam de frequentar a minha casa porque eu as matei e as novinhas da espécie ainda não alcançaram idade suficiente para o acasalamento – o que pode resultar em invasões futuras – mas uma ideia mais alusiva à política da boa vizinhança.

Quando descobri que essas bichinhas demoram tanto tempo para se tornarem adultas, tive um sentimento de dó muito grande, misturado com ciência de boteco e pesquisas no Google, me achando o biólogo especialista com doutorado em alguma faculdade no meio da floresta em alguma parte da América Central. E como defensor dos animais (menos os peçonhentos) me vi impedido de aniquilar um ser que pode conviver em paz comigo, desde que ele saiba o seu lugar.

Foi quando comecei a tocá-las daqui, vivas, usando a vassoura não mais como borduna, mas de repelente inofensivo, quase um pedido gentil de licença.

Claro, nesse momento da minha vida, desde a infância, a fobia já não é mais fobia, hoje é apenas um asco movido a susto e hesitação e conversar com as aranhas antes de expulsá-las daqui tornou-se um hábito natural e psicótico. A impressão que tenho nesse momento é de que entro em transe profundo e me coloco no lugar delas ou com elas, sentados a uma mesa, tomando vinho e papeando sobre a preservação da vida e reprodução da espécie.

Hoje entendo porque, com tanta mata em torno da casa e pela vizinhança afora, não é e nunca foi comum ratos e baratas transitarem por aqui. Existe uma fronteira entre a gente – eu e as aranhas –, um tratado de paz e, lá fora, um equilíbrio ecológico e um banquete para elas. Afinal, definitivamente, elas não apreciam minhas especiarias culinárias.

Continuo conferindo, dentro dos calçados, todos os dias, como mamãe me ensinou na infância.

Laz Muniz,
atleta do acaso, de duas pernas, pela lei da necessidade do pânico.

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Laz Muniz cultiva trepadeiras em arranha-céus e cria marimbondos debaixo do travesseiro. Cozinha para si mesmo (Ainda bem que a comida do seu cachorro já vem pronta, lhe poupando algumas horas de vida). E por falar em vida, faz desenhos para viver só porque não sabe fazer forcas e guilhotinas, o que seria muito mais rentável. Mas, quando criança, aprendeu com a doméstica da casa da sua avó a fazer um bodoque de galho de goiabeira e câmara de ar de pneu de bicicleta que é uma maravilha! Se define como escrevinheiro de mariolas ou desenheiro de escrivinhações. Ou seja, um Iluscritor. Facebook: http://facebok.com/lazmuniz Instagram: http://instagram.com/lazmuniz Twitter: http://twitter.com/lazmuniz Blog: http://lzmz.blogspot.com