LÍRICA IMPETUOSA: A Fábula dos Fatos

Tutorial de como rir amarelado quando não se entende uma história mal contada.

Um dia, a cigarra, soprando uma valsa de Chopin em seu fagote, perguntou a uma trupe de formigas mambembes, que por ali passavam, “Quem foi o escritor do livro As Noites Frias do Grão Vizir”?

Encabuladas, quatro formigas de cabeças menores recuaram dois passos. Duas de cabeças maiores e tórax avantajados sacaram suas garruchas de cano curto e dois tiros – nervosas como pit-bulls de seis patas e duas cabeças – e apenas uma, a mais mirradinha de todas, estendeu quatro braços solidários, abertos, para a questionadora cigarra e retrucou-lhe sem saber para que tal finalidade:

– Se eu der a resposta certa à tão decente idiossincrasia questionável, você me responde quem foi o arquiteto do grande cupinzeiro prateado localizado ao lado centro-oeste da Muralha da Conchina, um pouco acima de Shin-Shun-Tantan, bem próximo ao cabideiro de ovelhas de tinjin-cuscus?

Os formigões cabeçudos que empunhavam garruchas se acalmaram, entreolharam-se com respeito para tamanha esperteza de tal disputa de egos e sabedorias, e as quatro formigas reprimidas voltaram a seus postos de frente a carruagem de casco de caramujo que estavam carregando. Já a cigarra, boquiaberta e de olhos arregalados, pairou um pouco no ar até chegar a si, após alguns 30 segundos insepctóides (o equivalente a três horas e quarenta e sete minutos para o ser humano).

A complexidade daquela pergunta deu a formiga um grande poder de conhecimento de causa, o que chocou a todos, “óóóóóóóóhhhhhhhhh, que conhecimento vasto – vide enciclopédias Barsa!!!” (trilha em uníssono allegro molto, em dó menor sustenido avançado com ascendente em si bemol e encerramento trágico em colcheias).

Assim, a cigarra deu uma assopradinha sem graça, amarelada, com cara de paisagem morta de cores Bruno Wan Dick em seu fagote de talo de broto de mamona e afirmou, categoricamente, com a boca melada em nódoas escorregadias:

– Sim, respondo.

Vixe, Maria! A mirradinha formiga que havia imaginado, finalmente, ter pegado a lendária cigarra na charada, raciocinou consigo mesma “caçamba de entulhos, e agora? Eu não vou saber a resposta para a pergunta do livro. Nem mesmo sei que livro é esse!? Mentira e metidez misturadas têm mesmo suas consequências!!!”

– O arquiteto do grande cupinzeiro prateado localizado ao lado centro-oeste da Muralha da Conchina, um pouco acima de Shin-Shun-Tantan, bem próximo ao cabideiro de ovelhas de tinjin-cuscus, chama-se Arionauro Besouro Terceiro, o Cafajeste Empilhado – respondeu a cigarra, secamente como toco de jacarandá morto há 300 mil anos, sugados pelas energias vitais dos baobás, próximo a uma floresta de mudas de sequóias.

– Pronto! Era toda a informação de que eu precisava. Pronto! Pronto, mesmo! Mesmo, mesmo até mais que mesmo mesmíssimo de tão mesmo! Muito obrigado, Seu Cigarra das Fábulas de Isopor! – disse a formiga, ofegante e ansiosa, saindo despistadamente de perto, de fininho – como dizem os não franceses: a francesa – junto a sua trupe mambembe maltrapilha.

E quando, finalmente, viraram pelas curvas do bosque do gramado daquele jardim e sumiram no infinito longínquo da Conchina Insepctóide, a cigarra se perguntou:

– Mas, por mil borbotões, será que não existe vivalma nesse mausoléu infinito de gigantescas gramas, capaz de me informar – tão simples resposta – quem foi o escritor do livro As Noites Frias do Grão Vizir?

Moral da História:

Se for pedir informação de localidade e direção, pergunte a taxistas e donos de armazéns que vendem linguiça defumada dependurada ao lado de chapéus e mata-moscas de fita amarela com grude ou giz tailandês; se precisar de hora certa e previsão do tempo, qualquer vovô ou camelô com cara de colombiano chinezim vendedor de pastel, na esquina, saberá (ou olhe para o céu); e se precisar saber qualquer informação sobre quem foi o escritor do livro As Noites Frias do Grão Vizir, pede-se encarecidamente pela primeira vez (após os desejos da cigarra) favor não arrancar as capas, folhas de rosto, trigésima oitava página e septuagésima quadragésima quinta palavra e qualquer outra página do livro que traga informações a respeito de seu autor – aquele mesmo cara que você quer saber quem é – a fim de acender fogueiras em noites frias com as folhas de papel misteriosas deste livro.

Moral Dois:

Sorria! Pois nunca piore uma piada mal feita.

Laz Muniz
Taurino maníaco depressivo que faz piadas das próprias mazelas,
com ascendência em escorpião africano que usa filtro solar 90°.

Comentários

Laz Muniz cultiva trepadeiras em arranha-céus e cria marimbondos debaixo do travesseiro. Cozinha para si mesmo (Ainda bem que a comida do seu cachorro já vem pronta, lhe poupando algumas horas de vida). E por falar em vida, faz desenhos para viver só porque não sabe fazer forcas e guilhotinas, o que seria muito mais rentável. Mas, quando criança, aprendeu com a doméstica da casa da sua avó a fazer um bodoque de galho de goiabeira e câmara de ar de pneu de bicicleta que é uma maravilha! Se define como escrevinheiro de mariolas ou desenheiro de escrivinhações. Ou seja, um Iluscritor. Facebook: http://facebok.com/lazmuniz Instagram: http://instagram.com/lazmuniz Twitter: http://twitter.com/lazmuniz Blog: http://lzmz.blogspot.com