Itapanhoacanga: uma relíquia no meio do caminho

Anote e decore bem este nome quem quer conhecer de verdade a Estrada Real: Itapanhoacanga, antigo distrito do Serro do Frio e atual de Alvorada de Minas, que podemos chamar de relíquia. Era um dos mais ricos garimpos de ouro da região, além de ter uma encantadora paisagem. Antes da data oficial de nossa visita — 18 de dezembro de 2004, com o pessoal do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) — estive lá várias vezes, com registros interessantes.

Numa das idas, em companhia de Roneijober Alves de Andrade e Sérgio Mourão, vestidos convenientemente de membros da Expedição Ronsarão, fomos à residência de Pedro Antônio de Carvalho, conhecido como Pedrula, então com 78 anos, zelador das igrejas. Lá a sua esposa Maria Cândida de Carvalho, dez anos mais nova, carregava uma criança de presumível um ano, enquanto batia numa gamela um doce de goiaba. Roneijober, como um político que carrega criança para agradar a família — só que ele faz isso naturalmente, obedecendo à sua autenticidade mineira — pegou o menino, nu como nascera, e recebeu imediatamente um ataque de diarréia, tão colorido quanto a goiabada. De equipamentos em punho, devolveu a criança à avó, sem antes se sujar completamente e quase inutilizar a sua poderosa máquina fotográfica. Registro hilário.

A minha viagem era outra, diferente, quando constatava, pela sexta vez, que a Igreja de São José, tombada pelo Iphan, importante exemplar da arte barroca, construída em 1746, continuava caindo e quase perdendo os seus altares com talhas e uma pintura de lindos painéis no forro. Outro importante exemplar barroco, também sem a atenção de autoridades, era a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, também com pinturas notáveis, do mesmo pintor da Matriz, Manuel Antônio da Fonseca, e de um discípulo do Mestre Ataíde. O povo choroso e triste sempre lamentando o desvio de verbas que não chegaram ao destino recomendado. — Ufa, classe política danada, sô! — esbravejou um itapanhoacanguense que se declarou cansado de ver o mesmo filme.

Itapanhoacanga foi também um antigo pouso do Caminho dos Diamantes e da Estrada Real, que ligava o Serro do Frio a Ouro Preto, passando por onde hoje se encontra a rua principal do distrito. Por aí transitaram governadores, tropas, garimpeiros e tropeiros, além de viajantes como John Mawe, em 1808, e Saint-Hilaire, em 1816, entre vários pesquisadores. Para o lazer, o Rio Landim tem sido citado nos tempos como uma das melhores opções, com suas águas cristalinas e mansas, além dos rios Campina e Tanque do Carumbé. Assim como nos séculos XVIII e XIX, a região de Alvorada de Minas, sobretudo em seu distrito de Itapanhoacanga, volta a ser hoje o centro de extrativismo mineral, com exploração de jazidas de minério de ferro. As minas se estendem desde o distrito de São Sebastião do Bonsucesso (conhecido como Sapo, distrito de Conceição do Mato Dentro) até as proximidades do Serro.

Todas as expedições que passaram e passam pela região precisam enfrentar estradas de terra não tão bem conservadas, mas sabem que a dez quilômetros está sendo asfaltada a MG-010, que se estende de Serro a Conceição do Mato Dentro, daí até Belo Horizonte, com a pavimentação já pronta, via Serra do Cipó e estátua do lendário Juquinha, obra da artista Virgínia Ferreira, e Lagoa Santa.

E assim nos preparamos para o prosseguimento da jornada, depois de sentir que o Iphan pouco pode fazer pelos monumentos, a não ser multar e orientar. Chora, povo sofrido.

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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.