ESTRADA REAL: Ipoema, a ave que canta uma luta sem fim

Diz a voz do povo que o termo Ipoema significa, em tupi-guarani, ave que canta. Como a voz do povo é a mesma de Deus, proclamo, então, que a ave canta a luta do povo ipoemense, exemplar esforço em sentido coletivo. Desde tempos imemoriais é uma gente perseguidora do progresso e quer que se transforme em desenvolvimento constante.  Há poucos anos decorridos, o povo do “Distrito Sorriso”, cognome dado pelo ex-prefeito Daniel Jardim de Grisolia, lutava para industrializar a sua região com o plantio de cana e se enquadrasse no Pró-Álcool, outra balela que foi engolida pelos amantes da esperança. Tentou a comunidade, a duras penas, que progredisse a Cooperativa dos Plantadores de Cana da Região Centro-Leste de Minas Gerais (Coagrican). Infelizmente, depois de alguns anos inglórios, o próprio governo federal não cumpriu a sua parte e deixou o povo a ter o etanol a preço de banana e, portanto, sem futuro.

A vida continuou e apareceram a história, a cultura e o turismo. Recriada a Estrada Real, com absoluta certeza muitos especialistas, observadores e viajantes classificaram a velha Pouso Alegre, depois Aliança, como o local que mais cresceu na filosofia impregnada pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) e Governo de Minas. Quando os 177 municípios do circuito começavam a trabalhar, Ipoema já tinha instalado o Museu do Tropeiro. É claro que com o apoio quase ou totalmente irrestrito da Prefeitura (depende de cada um), mas foram os ipoemenses que arregaçaram as mangas e deram a vida pelo interesse público.

Em pouco tempo, o distrito de Ipoema estava quase que totalmente ligado por asfalto a todos os caminhos, em todas as direções, faltando somente, hoje, os 15 quilômetros que a separam do co-irmão Senhora do Carmo. De onde partiu a destemida luta não foi de lugar algum, a não ser das incansáveis reuniões da comunidade, das visitações frequentes e sequentes aos órgãos de governo e do trabalho para agilizar não apenas o museu, mas também outros empreendimentos, como Morro Redondo e a pura restauração da cultura local, na forma de perenizar as suas manifestações mais esplendorosas e entranhadas nos costumes do povo.

Empreendendo uma luta que deu frutos imediatos em novas e luxuosas pousadas, na gastronomia que voltou ao gosto do povo e, também, nas rodas de viola que transformaram o lugar em ponto de encontro de turistas de todo o Brasil. Da noite para o dia Ipoema apareceu com água tratada, telefonia celular, estradas pavimentadas, locais para curtir férias e descansos, expedições e, ainda, a prática de esportes radicais. Tornou-se, então, como num milagre, um recanto de promessas, como uma futura Tiradentes. O que lhe falta, a nosso ver, é redesenhar as ruas e criar no seu piso e na urbanização um modelo de paisagem que descanse pernas e vistas e que faça respirar de prazer quem aí permanece ou transita.

A passagem e a estadia de tropeiros por esse local aprazível sempre foram vistas como o ponto de partida para arrancar até poetas da toca ou do quase nada. Esses também saíram para entoar com a ave que canta os bemóis entoados que asseguram: a luta nunca mais vai parar porque o rumo já está traçado. Por todos os séculos dos séculos.

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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.