Inspiração e rotina

Feriado prolongado, me desliguei de tudo. E seria muito bom se eu não tivesse me esquecido que eu tinha que escrever a coluna pra esta terça.

Eu estava pronta para por o pijama quando me lembrei do meu compromisso com vocês e aí eu travei. Travei porque eu fui pega com as calças na mão (o short do pijama mais precisamente) e não tinha ideia sobre o que escrever.

Sou bem boa em encher linguiça e podia ficar aqui contando casos engraçados pra vocês, mas foi justamente a falta de inspiração para a escrita que me trouxe o assunto de hoje: a falta de inspiração na cozinha.

Quando a gente cozinha em casa é mais fácil, improvisamos um mexido, um macarrão ao alho e óleo e tudo certo. Mas quando se trata do nosso trabalho, a coisa complica um pouco. Rotina todo trabalho tem, até a falta de rotina de um trabalho é um tipo de rotina.

Em geral trabalhamos com um cardápio pré-estabelecido que seguimos rigorosamente todos os dias, começamos muitas vezes um dia antes com o pré-preparo ou mise-em-place (expressão francesa que significa “posta no lugar”, que é organizar todos os insumos utilizados para sua preparação de maneira que facilite a execução dos pratos), ou seja, temperar carnes, descascar e picar legumes, pré-cozer alguns alimentos mais trabalhosos.

Essa repetição de tarefas muitas vezes automatizada te joga na mesmice e até desmotiva. E cozinhar sem inspiração é muito ruim. Não flui!

Você se distrai, deixa passar alguns errinhos que, no fim, fazem diferença e a comida não tem o mesmo sabor. A solução? Não tem no livro de receitas nem consta na ficha técnica de preparo dos pratos.

Quando isso acontece eu respiro fundo e começo a pensar no porquê eu escolhi estar ali, em tudo que me levou até aquele momento, e no quão importante é o que eu me propus a fazer. Eu acredito muito que passamos nossas energias e emoções pra comida e, por isso, eu evito cozinhar quando estou triste ou com raiva. Se não tem jeito eu vou ao banheiro conto até dez, lavo o rosto (se eu precisar falar sozinha ou chorar tá valendo também) e volto.

Tem dias que você não acerta o arroz, a massa passa e o molho não fica com o mesmo brilho. É assim para o escritor que não se acerta com as palavras, com o economista que não acerta os cálculos e o designer que não consegue achar as combinações perfeitas de traços e cores para o seu projeto.

Eu sempre invoco a minha paixão pelo que faço para tentar resolver a falta de inspiração. Eu me lembro da promessa que fiz pra mim mesma que jamais pegaria numa panela sem sentir prazer naquele momento e ter certeza do que eu escolhi fazer e fazer bem feito, com dedicação e amor. Tem dado certo!

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Kamila Duarte de Jesus ou simplesmente Nêga, como é chamada pela família e pelos amigos, traz a paixão pelas panelas no DNA. Bisneta de Raimundo Cozinheiro - cozinheiro dos ingleses que vieram para Itabira junto com a Companhia Vale do Rio Doce -, aprendeu a cozinhar ainda criança quando usava um mini fogão a lenha para preparar guisados e batatas para suas bonecas. Formou-se em Publicidade e Propaganda pelo Centro Universitário Newton Paiva por ouvir de todos que era muito criativa. A paixão pela gastronomia passou de brincadeira de criança a assunto de adulto e já atuando profissionalmente na área se formou em Cozinha Profissional pelo Senac – MG em 2014. Acredita que um bom prato de sopa até cura, que doce é um carinho na alma e que cozinhar é uma maneira de demonstrar amor ao próximo.