GASTRONOMIA: Na cozinha ou onde nós quisermos!

No meu imaginário a cozinha sempre foi o lugar das mulheres. Desde criança brincava com primas e coleguinhas de comidinha. Ensaiávamos bolinhos de barro e folhas de amora, brincávamos de restaurante com as comidas que minha babá e minha avó nos davam.

Sempre vi minha mãe, minhas tias e minha avó à frente do fogão e, apesar de ouvir as histórias do meu bisavô Seu Raimundo, cozinheiro dos ingleses, e de saber que meu vô por parte de pai sempre comandou o fogão da casa dele, a cozinha foi sempre um lugar de mulher.

A mãe, a dona de casa, a empregada doméstica é quem cuidavam do fogão. Aí eu comecei a me enveredar pelos caminhos profissionais do forno e do fogão e comecei a ouvir que a cozinha era extremamente machista, que as mulheres sofriam muito dentro das cozinhas dos restaurantes. Não entendia muito bem até ter o meu primeiro emprego e sentir na pele esse machismo, o preconceito e a segregação.

Cozinha não é lugar de mulher, mulher não sabe afiar facas direito, não consegue pegar as panelas pesadas, mulher não pode isso, mulher não consegue aquilo. Puro machismo arraigado por gerações de homens que se sentem superiores. Apesar das roupas nada insinuantes, as mulheres são constantemente assediadas, elas ganham menos e, sim, sou prova de que, por ser mulher, deixei de ser promovida, perdi o cargo… para um homem tão qualificado quanto eu, mas ele era homem e era amigo do Chef, que era?! HOMEM!

Muita coisa mudou. Temos muitas mulheres respeitadas na gastronomia atual do país e do mundo, conquistamos muito espaço, mas há tanto caminho a percorrer, tantas regras a serem quebradas, tanto machismo e preconceito a serem vencidos.

Hoje, no dia Internacional da Mulher, meu texto é um desabafo e um pedido de igualdade e de liberdade. Igualdade em tratamento e direitos, liberdade para sermos quem quisermos ser e onde quisermos, na cozinha ou no escritório, usando panelas ou operando máquinas, de saia, calça, terno ou vestido. Que sejamos reconhecidas e respeitadas pelo nosso esforço, conhecimento e talento. Brigamos por respeito e por igualdade há muito tempo, e iremos continuar até que nós não tenhamos medo de sair nas ruas sozinhas, de pegar um táxi, de usar uma roupa com mais decote, até que nossos salários sejam medidos pelo cargo e pela competência e não por calcinha ou cueca.

Homens, melhorem! Mulheres, não abaixemos a cabeça! Neste dia 8 de março nós queremos chocolate porque gostamos, mas queremos ainda mais o direito de escolher onde vamos estar e de ser respeitadas por nossas escolhas.

Lugar de mulher é onde ela quiser.

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Kamila Duarte de Jesus ou simplesmente Nêga, como é chamada pela família e pelos amigos, traz a paixão pelas panelas no DNA. Bisneta de Raimundo Cozinheiro - cozinheiro dos ingleses que vieram para Itabira junto com a Companhia Vale do Rio Doce -, aprendeu a cozinhar ainda criança quando usava um mini fogão a lenha para preparar guisados e batatas para suas bonecas. Formou-se em Publicidade e Propaganda pelo Centro Universitário Newton Paiva por ouvir de todos que era muito criativa. A paixão pela gastronomia passou de brincadeira de criança a assunto de adulto e já atuando profissionalmente na área se formou em Cozinha Profissional pelo Senac – MG em 2014. Acredita que um bom prato de sopa até cura, que doce é um carinho na alma e que cozinhar é uma maneira de demonstrar amor ao próximo.