GASTRONOMIA: Mãos ao alto! Roubaram nossa cozinha

O texto de hoje tem um quê de desabafo e um gosto amargo de desesperança. Desculpem-me, mas, às vezes, é necessário.

Conheço muita gente que nunca pisou numa sala de aula e sabe muito mais do que eu. Tem vinte, trinta anos de cozinha e sabe, pelo som da panela, se a carne está cozida ou não. Meus respeitos, pois, se chegaram a isso foi à custa de muito suor, dor nas pernas e na coluna, abstenção de vida social e convívio familiar, e a grande maioria dessas pessoas quase nunca vestiu um dólmã e não foi preciso vestir para hoje terem um título de cozinheiro ou um cargo de chef (vale reforço chef é cargo, não é profissão).

Conheço gente também que estudou a vida toda, ainda estuda, que colocou a mochila nas costas e foi trabalhar de graça para grandes nomes da gastronomia para ganhar experiência e aprender – fica aqui meu “mea culpa” por sentir inveja de não ter tido essa coragem –, passaram até 16 horas numa cozinha e, hoje, ostentam prêmios e bons cargos: MERECIDOS.

A verdade é que estes exemplos acima são exceções. O que mais temos no mercado são pessoas sem preparo e sem qualificação suficiente na cozinha, os que se autodenominam chef por gostar de cozinhar pros amigos e pra família, por saberem um ponto de risoto e cortarem um juliene de acordo. São pessoas que tomam para si, assim de assalto, o cargo e a oportunidade dos que se esforçam, se qualificam e se preparam para o mercado de trabalho e, justamente por se prepararem, não aceitam ganhar um salário mínimo ou um pouco mais para carregar uma cozinha nas costas. Tomam de assalto, pois é muito fácil vestir um uniforme bonito e se intitular chef, montar um belo prato e postar nas redes sociais. É fácil ser chef em horário comercial, até eu, humilde cozinheira conhecedora do meu talento, aceitaria essa missão. Mentira! Meu caráter jamais me deixaria cometer tamanho disparate.

O desgosto de profissionais como eu com a área é de ver portas se abrindo para pessoas com um nada de noção, e vendo outras tantas se fecharem para quem investiu tempo e dinheiro para estar preparado e não encontrar oportunidades dignas de trabalho. Cozinhar arroz, feijão e macarrão é fácil, até risoto, dou uma receita aqui pra vocês em três minutos. Estou falando de estudo, técnica, conhecimento adquirido por horas debruçadas em livros, testes na cozinha, noites em claro; estou falando de criar receitas do zero, de administrar uma cozinha como deve ser feito e não apenas para se manter aberto. Estou falando, gente, de competência e qualidade. Tá escasso, tá raro, tá tudo “feito nas coxas”, dá vergonha.

Eu estou triste, desiludida, abro a internet, os jornais, entro nas redes sociais e a cada linha lida meu coração aperta, meus olhos se entristecem. Não é justo com quem estuda e se dedica, não é justo com quem trabalha há anos e espera uma oportunidade. Mas, a vida nunca foi justa não é mesmo!

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Kamila Duarte de Jesus ou simplesmente Nêga, como é chamada pela família e pelos amigos, traz a paixão pelas panelas no DNA. Bisneta de Raimundo Cozinheiro - cozinheiro dos ingleses que vieram para Itabira junto com a Companhia Vale do Rio Doce -, aprendeu a cozinhar ainda criança quando usava um mini fogão a lenha para preparar guisados e batatas para suas bonecas. Formou-se em Publicidade e Propaganda pelo Centro Universitário Newton Paiva por ouvir de todos que era muito criativa. A paixão pela gastronomia passou de brincadeira de criança a assunto de adulto e já atuando profissionalmente na área se formou em Cozinha Profissional pelo Senac – MG em 2014. Acredita que um bom prato de sopa até cura, que doce é um carinho na alma e que cozinhar é uma maneira de demonstrar amor ao próximo.