GASTRONOMIA: Desperdício zero – consciência e economia

Quando era criança eu tinha a obrigação de comer tudo que estava no meu prato. Lá em casa sempre foi proibido largar comida, desperdício não era aceitável. Cresci ouvindo minha avó, minha mãe e minhas tias contarem das dificuldades que passavam, de não poderem escolher o que comer, era o que tinha e ponto final.

Minha mãe fazia questão de nos lembrar da sorte que tínhamos por ter o que comer e a importância de agradecer por termos aquele alimento à mesa, não podíamos deixar sobras, era pecado, era injusto com os que passavam fome, e ainda é assim até hoje.

Esses valores me acompanharam até a cozinha profissional e carrego comigo a consciência de aproveitar bem os alimentos, se possível em sua totalidade. Dar vez aos legumes, frutas e verduras que não são esteticamente bonitos para apresentação em um prato, mas que, em perfeitas condições, servem de base para molhos, caldos, recheios e sucos por exemplo.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura – FAO, o desperdício de alimentos chega a 1,3 bilhão de toneladas por ano, um terço de tudo que é produzido no mundo. No Brasil, a Embrapa aponta que, em média, cada habitante joga fora, por ano, 35 kg de frutas e 37 kg de hortaliças.

Esses dados assustam ao pensarmos na quantidade de pessoas ao redor do mundo em situação de miséria. Daí a importância da conscientização para o aproveitamento total do alimento, as escolhas na hora das compras. Em se tratando de restaurantes, infelizmente a vigilância sanitária não permite a doação de alimentos processados, apenas frutas e hortaliças ou produtos industrializados. O aproveitamento vai além do impacto socioambiental, é sinal também de boa gestão, visto que é necessário pensar em lucro e em números positivos no caixa.

Em casa atitudes simples podem mudar a maneira como enxergamos e administramos nossa despensa e geladeira. Potes para freezer, boas escolhas na hora da feira, mas atenção aos prazos de validade, um conjunto de atitudes que, no fim, são a grande diferença.

Use a criatividade e transforme as sobras do almoço em jantar, o arroz que sobrou pode virar um bolinho, junte os restinhos de queijo em um potinho no freezer e em breve você terá queijo suficiente para molhos e recheios. Compre em pequenas porções, faça somente aquilo que você consumir, congele o que sobrar. Se você for fazer sopas e caldos, dê uma chance aos legumes tortos, meio amassados; se estiverem em boa condição de uso, não há motivo para descarta-los só por não serem esteticamente atraentes. O pão que sobrou do café vira torrada para acompanhar antepastos, croutons para saladas e sopas ou farinha para empanar. As frutas podem ser transformadas em compotas, geleias ou sucos, as aparas de carnes viram ragus, recheios de tortas e patês.

A cozinha é o melhor lugar para aplicar a lei de Lavoisier: na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

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Kamila Duarte de Jesus ou simplesmente Nêga, como é chamada pela família e pelos amigos, traz a paixão pelas panelas no DNA. Bisneta de Raimundo Cozinheiro - cozinheiro dos ingleses que vieram para Itabira junto com a Companhia Vale do Rio Doce -, aprendeu a cozinhar ainda criança quando usava um mini fogão a lenha para preparar guisados e batatas para suas bonecas. Formou-se em Publicidade e Propaganda pelo Centro Universitário Newton Paiva por ouvir de todos que era muito criativa. A paixão pela gastronomia passou de brincadeira de criança a assunto de adulto e já atuando profissionalmente na área se formou em Cozinha Profissional pelo Senac – MG em 2014. Acredita que um bom prato de sopa até cura, que doce é um carinho na alma e que cozinhar é uma maneira de demonstrar amor ao próximo.