ESTRADA REAL: São Gonçalo do Rio Abaixo: história e religiosidade

São Gonçalo do Rio Abaixo é conhecida hoje pelo seu rápido desenvolvimento e progresso sustentável. Assim, a juventude vê a cidade, que se completa com eventos culturais de alto nível. Mas essa mesma juventude precisa conhecer a tradição de tão importante comuna, ainda em franco crescimento, graças à mineração de ferro, pela sua história acobertada nas origens do Estado de Minas Gerais. Tudo o que se vê, naturalmente, foi iniciado no despertar de um núcleo urbano no século 18, nas expedições  dos bandeirantes paulistas e portugueses, principalmente os últimos.

Como era de praxe antigamente, a riqueza pretendida, razão do aparecimento de arraiais no período setecentista, aportava-se nas bateias dos garimpeiros em água corrente, chamado ouro de aluvião. Em 1704, Antônio Bueno explorou ricas minas no Ribeirão Santa Bárbara e nessa área foi criado o povoado de  São Gonçalo, entre 1710 e 1720. O patrimônio histórico e cultural teve uma parte conservada ao logo dos anos. Por exemplo, havia mais de uma dezena de  engenhos de cana, algumas fábricas de ferro e outra dezena de minas de ouro, que teve preservação. Em 1º de junho de 1850, o antigo curato de São Gonçalo do Rio Abaixo, filial da matriz de Santa Bárbara, foi elevado à categoria de Paróquia e seu primeiro vigário chamava-se Manuel Antônio de Souza Vinagre. Em 30 de dezembro de 1962 o distrito santa-barbarense sofreu desmembramento de sua sede. Em 1º de março instalou-se solenemente a cidade emancipada.

Quem percorre hoje as ruas de São Gonçalo do Rio Abaixo percebe que ainda há sinais contundentes dos últimos 300 anos. Primeiro, na Igreja do Rosário, do século 18, e também na Matriz do Padroeiro, que reina no centro geográfico da crescente urbe e é do mesmo século. Ao redor do templo há moradias, quase todas antigas, com sinais da época da construção da igreja. À sua frente, um cruzeiro, rodeado de jardins, coreto e  chafariz enfeitam o espaço.

Com a chegada da mineração de ferro, situada em terreno um pouco afastado do centro urbano — Brucutu, a 12 km —, fator que favorece demais a atividade por ser pouco afetada pela poluição, o município ganhou uma evidência nacional graças ao crescimento econômico, o que favorece o desenvolvimento social e urbano. Além dos quesitos que tornam o município autêntico caminho da Estrada Real, no rumo de Santa Bárbara e Barão de Cocais, há fortes tendências para o turismo, especialmente o religioso.

Uma estátua do Padre João José Marques Guimarães, que mede 20 metros, foi erguida no alto de um morro. A escultura, denominada Memorial do Padre João, representa  a crença da maioria do povo são-gonçalense, de moradores da região e de locais distantes, nos milagres daquele que, a partir de 1924, três anos após ser ordenado, permaneceu por meio século cativando a população com o seu jeito simples e enérgico. Após o falecimento, em 23 de março de 1984, aos 94 anos, os fiéis passaram a visitar com frequência a sepultura, onde depositam flores em sua homenagem. Reza a lenda local  uma listagem imensa de milagres atribuídos ao renomado clérigo.

Concluindo, pois, que turismo se faz com visitantes, tem-se que as multidões estão sempre atentas à cidade que, a despeito de ser uma das que mais crescem na região e até em Minas Gerais, os seus administradores capricham em promover festas tradicionais — Carnaval, Festa do Padroeiro, Dia do Padre João/Dia da Cidade, Cavalgada e outros acontecimentos mais —, gerando fontes de receitas para o município e renome para a região.

O viajante que quer percorrer, observando o mapa do trajeto correto do Caminho dos Diamantes/Estrada Real, opta pelo roteiro Bom Jesus do Amparo-Fazenda dos Gazire São Gonçalo. Há alguns trechos de terra, mas é o que muitos aventureiros preferem e como preferem se divertir! Nesse trecho, fiz o percurso pelo menos cinco vezes. Numa delas, viajava com um amigo do Rio de Janeiro (não era o Celso Charneca), que me pediu para parar num boteco desses de café, cachaça, rapadura e, vez por outra, refrigerante e cerveja. O turista arrumou a roupa, penteou o cabelo, repôs o boné e se dirigiu ao caixeiro:

—  Bom tarde! Você tem um cafezinho?
—  Tenho, sim sinhô, mas tá frio!
—  Então, abre uma cerveja…
—  Cerveja tá quente!

(rsrsrsrsrsrsrsrsrs)…

Essas e outras conversas ao longo do itinerário divertem muito os que procuram aventura. Aventura, sim, para o humor também, porque ninguém é de ferro e todos precisamos rir e muito… e na Estrada Real tem de tudo.

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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.