ESTRADA REAL: Santa Bárbara estava pronta quando a Coroa Portuguesa inventou a Estrada Real

Não é preciso dizer que Santa Bárbara começou com a vida sendo sustentada pelo ouro. Bandeirantes paulistas, como sempre, batearam os córregos e riachos em volta de onde fundaram o arraial, no século 18. O descobrimento das minas atraiu outros aventureiros mineradores à região na esperança de se tornarem ricos rapidamente. É o que todo mundo quer, mas só que antigamente com trabalho, hoje quase sempre com espertezas e mutretas. Assim nascia o povoado de Santo Antônio do Ribeirão Santa Bárbara, nome escolhido por serem os bandeirantes devotos do santo. A isso inseria o nome também da santa no dia 4 de dezembro, data que passou a ser comemorada como Dia da Cidade.

Segundo registros históricos, a construção da Igreja Matriz de Santo Antônio, a primeira e a mais imponente do lugar, foi iniciada em 1713. À medida que o arraial crescia, outras igrejas e capelas iam sendo edificadas. A partir da segunda metade do século 18, as reservas de ouro de aluvião começam a se esgotar devido a um processo de super exploração. Veio a hora da decadência. As alternativas de vida eram as culturas de subsistência e a criação de gado.

Nos primeiros anos do século 19, as atividades de mineração quase não existiam mais. Saint-Hilaire registrou essa impressão em 1817, testemunhando o abandono do povoado e registrando o desabafo de um proprietário de várias residências vazias. João Emanuel Pohl, que também visitou o local, anotou impressões mais detalhadas sobre a fisionomia das ruas e dos edifícios, afirmando que os moradores viviam mais da criação do gado e da cultura dos frutos do campo.

Contudo, devido à privilegiada localização geográfica, o arraial seguiu adquirindo forças suficientes para se transformar em Vila. Pela Lei Provincial 134 de 16 de março de 1839 o fato se sacramentou. A instalação do aparato administrativo ocorreu em 28 de janeiro de 1840. As atividades econômicas floresceram. A vila vai ganhando importância e, em 6 de junho de 1858, pela Lei Provincial 881, é elevada à categoria de cidade.

Ao chegar às vésperas do século 20, Santa Bárbara consolida a sua importância como município da Província de Minas Gerais. Finalmente, em 12 de novembro de 1878 é feita sede de Comarca, pela Lei 2.500, desmembrando-se de Caeté. Naquele ano, a cidade registrava uma população de 47.200 habitantes, dez por cento dos quais na sede municipal. Os trabalhadores escravos registrados eram cerca de 7.160 – representavam pouco mais de seis por cento da população existente no município naquele momento submetida a algum tipo de trabalho remunerado.

Em agosto de 1911, foi inaugurada a Estação Ferroviária da Estrada de Ferro Central do Brasil, antes mesmo da conclusão de toda a infraestrutura necessária. Pouco depois era inaugurada a estação, consolida-se o processo econômico do início do século 19 com a mudança nas funções e na maneira pela qual a população organiza a sua sobrevivência.

Enquanto Porto Seco e Fim de Linha, a cidade floresceu, tornando-se referência econômica da região. A sede do município contava com equipamentos urbanos, modernos, com luz elétrica, água encanada, um hospital e um grupo escolar. Neste campo, o melhor momento dos grupos dominantes em Santa Bárbara é a posse do conselheiro Afonso Pena, como quinto Presidente da República, de 1906 a 1909.

Hoje, Santa Bárbara conta com quatro distritos: Florália, Barra Feliz, Brumal e Conceição do Rio Acima. No desenrolar de sua história, Santa Bárbara também se tornou importante passagem na rota entre a corte, no Rio de Janeiro, e as minas do centro/norte de Minas Gerais. E por causa disso aí chega, ou seja, com estupendo destaque para a Estrada Real. Conclusão: é um município diferente de muitos outros, construídos pelo chamado Caminho dos Diamantes. Quando chegou o transporte por cargueiros ou por escravos de riquezas para a Coroa Portuguesa, eis que a cidade estava pronta e as estradas abertas.

Num ambiente de festas inesquecíveis, o santa-barbarense, advogado José Anchieta, comandou, em 2005, as celebrações do tricentenário de Santa Bárbara. O que ele pretendia, conseguiu: com lançamentos de livros, outorga de medalhas e homenagens a personagens históricos, Anchieta fez imortalizar as realizações até aí consagradas.

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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.