ESTRADA REAL: Os quase astecas, maias e incas Bento Rodrigues e Camargos

Estávamos em junho de 2005. Os distritos de Mariana permaneciam intactos. A vida fluía feliz, sem problemas. Essa foi a minha/nossa visita oficial realizada no percurso. Outras passagens pelo caminho viriam. Afinal, a região central da Estrada Real e do Caminho dos Diamantes têm um especial carinho dos turistas. Desempenham, também, assim como Diamantina, o papel de cartão postal da jornada. Distritos ou localidades e uma grande cidade histórica estão por vir.

O clima em Santa Rita Durão carrega uma dose de esperança na mineração de ferro. “Esse povo de Minas Gerais não se farta de sonhar com as riquezas do subsolo” — disse-me certa vez o cantor Chico Lobo, que fazia turnê em Portugal, quando lá estivemos, em 2006, para documentar um inesquecível festival cultural, em Serpa, quase divisa com a Espanha. Santa Rita Durão, distrito de Mariana, fica a dois passos de Catas Altas, cidade que focalizamos numa dessas crônicas passadas.

Santa Rita chama a atenção por motivos diversos: aí nasceu o poeta épico Frei José de Santa Rita Durão e estão fincadas duas igrejas históricas — a Matriz de Nossa Senhora de Nazaré e a Capela de Nossa Senhora do Rosário, monumentos tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), datadas do século XVIII. Há outra notoriedade que um visitante percebe ao chegar: a estátua do Frei, que empresta o nome à vila e enfeita a praça principal. Mais uma novidade do histórico distrito, fundado em 1702, negativo por sinal, é o impulso que ganhou ultimamente e que ameaça o sentimento de patrimônio público ainda existente, a mineração do ferro, de novo.

A próxima parada é Bento Rodrigues, nome que neste início do ano de 2016 tornou-se conhecido em todo o país por motivo desastroso: a destruição de uma barragem da empresa mineradora Samarco, que despejou toneladas de lama sobre o arraial, matou dezenas de pessoas e peixes, destruiu a paisagem, arrebentou o Rio Doce e até poluiu o Oceano Atlântico na área do Estado do Espírito Santo. Maior estrago só o fim do mundo causaria.

Não pude ver mais Bento Rodrigues, o primeiro rastro de terror e horror entupido de lama pelo rompimento da Barragem de Fundão. Pelos jornais da TV vi várias vezes a dona de um estabelecimento comercial famoso do lugar, a Sandra, do Bar da Sandra, situado ao lado da Capela de São Bento. Havia dentro do bar um painel de fotos de paisagens e personagens expostos.  A casa de hospedagem de turistas era a própria venda, estendida até os fundos. Hoje não existe nem o bar nem a capela. Triste constatação.

Logo adiante, quase unindo uma vila à outra, desponta Camargos, onde existe a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição lá no alto de uma colina, construção de 1707, tombada pelo Iphan. A ermida apresenta adro cercado por murada de pedra e escadaria à frente, e abaixo um cruzeiro de madeira. Por lá estive incontáveis vezes e fiz até o meu censo particular: eram 31 casas, sendo 12 habitadas permanentemente e 19 apenas nos fins de semana.

Hoje não dou conta de declinar o que sobraram nos arraiais marianenses. Só sei que se modificou não apenas a característica física da região, mas, principalmente, o sentimento dos moradores e/ou donos de imóveis enlameados ou eliminados totalmente. Dois povoados que existiram mais parecem o fim de uma civilização, como ocorreu, por exemplo, com os povos  pré-colombianos da América, astecas, maias e incas. Por pouco não ficaria ninguém para contar a história palpitante e dramática de Bento Gonçalves e Camargos.

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O Bar da Sandra e a Capela de Bento Rodrigues, dois dos locais atingidos pelo rompimento da barragem da Samarco, em Mariana. No alto, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Camargos, que, felizmente, não sofreu as mesmas mazelas que a sua companheira em Bento Rodrigues.
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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.