ESTRADA REAL: Mariana dispensava explicações. E agora?

Mariana era somente história, cultura e patrimônio. De repente, por causa de uma barragem de rejeitos — solução encontrada pela mineração para evitar a assoreamento de córregos, deter a água para lavagem de minério e fazer o embarque da matéria-prima nos chamados minerodutos — quebraram-se o encanto e a riqueza que atraem turistas, passando a merecer a pena dos deuses e até dos pagãos. O rompimento de uma das barragens da Samarco, em novembro de 2015 — que destruiu o distrito de Bento Rodrigues — se destacou como o maior desastre do gênero da história mundial nos últimos 100 anos, segundo órgãos especialistas no assunto.

Então, é isto: Mariana, como atração da rica história do Brasil, nada a declarar, a não ser os cuidados exigidos para que esse patrimônio histórico-cultural continue merecendo atitudes de zelo. Primeira capital de Minas Gerais, nela chegou Auguste de Saint-Hilaire, em 1818, na expedição que seguiu os rumos do Caminho dos Diamantes, dentro do trajeto da Estrada Real, o nosso foco. A origem da cidade remonta ao final do século 17, época em que bandeirantes chegaram à região em busca de ouro. A designação de Mariana veio mais tarde, em homenagem à rainha D. Maria Ana de Áustria, esposa do rei D. João V.

Em seu livro “Mariana, primeira capital de Minas Gerais”, João Orestes Pinto Leão diz que em sua terra “a aurora é mais úmida, o orvalho tem a doçura do mel, o crepúsculo é mais alegre, o luar é mais dourado e as noites são românticas, como estrelas sensuais”. Ufanismo à parte, o clima sofreu e sofre constantes alterações, como em todo o mundo e, principalmente, nas regiões mineradoras. Mantém-se toda a exuberância histórica como porta de Minas Gerais, assim como Ouro Preto, que segue no trajeto, e sempre as igrejas são notáveis destaques. Entre tantas ermidas, chama a atenção, como prova de cuidado com a história, a completa restauração da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, incendiada em 2002 e recuperada por ação da empresa Vale logo em seguida.

São incontáveis as atrações turísticas existentes em Mariana. O estudioso ou pesquisador da Estrada Real nunca deve perder, por exemplo, a Mina de Ouro de Passagem, a maior do mundo aberta à visitação pública. Percorri várias vezes toda a sua extensão, de 315 metros, depois de descer 120 metros para ver um cenário indescritível, visão de lagos de beleza incomum. A mina foi explorada no período de 1819 a 1985, no início por meio de tecnologia alemã; em seguida por ingleses, franceses e, finalmente, brasileiros. A Mina de Passagem recebe hoje em torno de 60 mil turistas por ano, segundo informações da Secretaria de Turismo da Prefeitura de Mariana.

Referindo-se a Mariana, não se pode omitir a citação do prédio da antiga Câmara Municipal; a Basílica de Nossa Senhora da Assunção, ou da Sé; os museus Arquidiocesano, da Música, do Livro, do Mobiliário; as Casas de Estalagem, da Intendência, dos Secretários, Setecentista; os seminários de São João e de Nossa Senhora da Boa Morte.

A mineração veio depois de toda a história antiga marianense e precisa ser, urgentemente, corrigida. Assim, a cidade voltará aos seus dias normais. Enquanto o Brasil inteiro xinga a Samarco e as suas legítimas donas, Vale e  BHP Billiton, moradores de Mariana fazem manifestações pela continuidade da extração, transporte via mineroduto e exportação do minério de ferro. São as necessidades prementes de quem vive do trabalho mineral, tanto como funcionário quanto beneficiário dos resultados indiretos, mais proximamente o comércio e os serviços.

Assim caminha a humanidade. Mas persistem fortes os sustentáculos da Estrada Real.

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Mina de Ouro de Passagem, a maior do mundo aberta à visitação pública.
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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.