ESTRADA REAL: Lobos, mistérios, reflexão, sossego, aventuras: estamos no Complexo Arquitetônico do Caraça

Alguém é atendido na portaria e aproxima-se do Conjunto Arquitetônico do Caraça. Leva o primeiro susto positivo ao ler a placa: “Você está chegando ao Paraíso”. “Inacreditável! Não é que isto está parecendo mesmo o Paraíso?” – teria questionado ou pensado. A primeira vez que estive lá, ao me deparar com essa frase diferente, parei o carro debaixo de uma sombra construída por uma árvore frondosa e passei a respirar o perfume da flora ao redor. O ambiente agradável  mostrava explicitamente querer me adular: senti que entravam plantas e flores  na fila, uma a uma, para afagar o meu olfato. Não mereço! – pensei de mim para mim, vaidosíssimo, mas já que desejam me conceder esse prêmio, demorei onde era apenas o princípio do Céu. Em seguida, fechei os olhos e me lembrei de um fato ocorrido há alguns anos na igreja matriz de São Sebastião do Rio Preto, minha terra natal.

O padre, dissertando sobre Céu, Inferno e Purgatório, como se quisesse dar uma aula sobre a Divina Comédia, de Dante, fez um desafio durante o sermão:
— Quem quer ir pro Céu levante a mão!
Todos levantaram e se ergueram do banco, alguns mais exagerados suspenderam aos gritos ambas as mãos, como se dissessem assim: “Inferno e Purgatório nunca!” Mas um solitário bêbado nem se mexeu e manteve as mãos para trás. Então o padre, vendo aquele lance, voltou a perguntar:
— Quem quer ir para o Céu levante a mão!
Nada de mão para cima, o bêbado continuou impassível, assentado, e agora de braços cruzados. Não se contendo, o vigário fez, desta vez, uma pergunta direta e fatal:
— O senhor aí do meio, de camisa listrada, não quer ir para o Céu quando morrer?
— Ah, tá! Quando morrer eu quero sim, seu padre! Pensei que a caravana tava saindo agora! Agora não posso, viu?

(risos, risos, risos)

E voltei a mim, pensando que estivesse, também, na caravana que teria saído naquele dia da igreja de minha terra. Flores, frutas, beija-flores, perfume agradável, era o que via e sentia. Fundado em 1774, a quase 2.070 metros de altitude ao pátio interno, incrustado no alto da serra do Espinhaço, o complexo soma 12 mil hectares e é patrimônio natural da Unesco. Sem contar as suas funções normais para qualquer leigo, ou agnóstico, é centro de peregrinação religiosa, turística, educacional e de pesquisa ecológica. Batizado como uma das “Sete Maravilhas da Estrada Real”, o santuário fica a apenas 120 km de Belo Horizonte e a 80 km de Itabira.

Caminhada ao Bosque, ao Banho do Imperador – preferido de Dom Pedro II – ao Calvário, ao Mirante, a inúmeros outros locais (cuidado para não se perder), muitas pessoas já sumiram  para sempre dentro das densas matas pertencentes a Catas Altas, grande parte, e Santa Bárbara, uma pequena gleba de terra. Igreja (fundada em 1883), as Catacumbas… além de Sala de Jogos, Biblioteca, Jardins etc. Para segurança dos visitantes, no local há guias especializados que prestam serviços ao turismo.

À noite, a diversão fica por conta do Lobo Guará, que é apresentado por um dos padres responsáveis pelo horário de shows. “Ele é uma espécie de canídeo endêmico da América do Sul, provavelmente a espécie vivente mais próxima do cachorro-vinagre”, esclareceu o Padre Wilson Belloni quando lá estive fazendo um dos percursos para reportagem na Estrada Real. Afirmou ainda o religioso: “Um dos lobos vem, desce, tanto pode ser o macho como a fêmea, mas só vem um deles, parece combinado”. E completou: “Quando a fêmea tem cria, o macho assume a responsabilidade de levar alimento para ela e os filhotes”.

Quem vai ao Caraça, seja para qualquer finalidade, pode escolher o seu hobby favorito. Um atrativo especial para quem aprecia a literatura antiga, o mosteiro oferece uma coleção de 250 livros do século 16. Onde se vê algo assim?

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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.