ESTRADA REAL: Em Catas Altas o progresso se firmou definitivamente

Catas Altas, hoje cidade, por sinal exemplo de desenvolvimento nos moldes em que sonham os que procuram a paz, teve uma vida tortuosa e até certo ponto difícil em variadas épocas da atividade econômica principal que oscilava entre a mineração do ouro e do ferro, o destaque agrícola e a atratividade do turismo. Considerando o cuidado que recebeu imediatamente após a emancipação, em 1995, acabou se firmando como o lugar ideal para se viver entre o conforto e a tranquilidade que se busca na área rural.

O nome Catas Altas surgiu das profundezas das escavações feitas  no período do Ciclo do Ouro, no século 18. Imaginem como é ou era a cabeça do ser humano naqueles idos tempos: quando exauriu o ouro, a população caiu na mais cava depressão, jamais imaginada em toda a história da região. Sem o ouro  tudo estaria  perdido, pensavam os moradores, que passaram a praticar um dos mais degradantes atos que um filho de Deus pode assumir quando vive em pleno gozo de saúde perfeita (exceto matar e roubar): tornar-se mendigo e caminhar de pires e chapéu nas mãos à cata de esmolas. Assim se posicionou a sociedade do pós-mineração, contam os historiadores, até a vinda de Portugal do Monsenhor Manuel Mendes Pereira de Vasconcelos.

O que fez o padre português? Contam os mesmos historiadores o seguinte: “Monsenhor Mendes acreditava que, para provocar mudanças drásticas era necessário educar as pessoas, ensinar a cultura de subsistência e desenvolver o conceito da vida em comunidade. Monsenhor Mendes ensinou ao povo o passo a passo da fabricação de vinho, como plantar as videiras, saber as épocas das podas, das colheitas, como esmagar as uvas, o período de fermentação, o armazenamento adequado para não acontecer nenhuma alteração. Depois de algum tempo, o padre empreendedor acabou ganhando a mídia nacional e fez Catas Altas e até Minas Gerais saírem do anonimato na produção de vinhos. Substituiu o ouro, portanto, pelo trabalho de resultados práticos, além daquele exemplo de ensinar a pescar que todos conhecem. Isso seria uma solução para substituir a famosa bolsa-família, nada mais nada menos que uma esmola que o governo concede para manter o cidadão ainda mais pobre.

A produção do vinho colaborou para que a população elevasse a sua autoestima. Uns plantavam as videiras, outros fabricavam o vinho, mais alguns comercializavam o produto, numa cadeia em que o dinheiro girava e todos saíam ganhando. O Vinho de Jabuticaba, que é fabricado e comercializado até hoje na cidade, surgiu quase 80 anos depois do Vinho de Uva, em 1949, produção do fazendeiro Anastácio de Souza. Antes as jabuticabas eram utilizadas para licor, o que muito se encontrava nas casas tradicionais do arraial”.

Se fosse ver a história do lugar representada por um gráfico, a subida e a descida de uma linha demarcatória mostrariam o quanto houve de tristeza e júbilo alternando-se no tempo e no espaço. Mais recentemente, quando o empresário Diogo Bethonico, responsável pela construção da maioria das casas na então vila santa-barbarense, interrompeu a atividade da extração do minério de ferro, aportou-se um novo momento dramático. Finalmente, depois da emancipação, o cidadão e vereador José Hosken   tomou a frente da Prefeitura e fez do ex-distrito um novo polo de progresso e desenvolvimento nos moldes pretendidos pela população e por aqueles que chegavam para conhecer as atrações turísticas, quando não para morar.

Outros prefeitos se elegeram em Catas Altas e tiveram nas mãos o modelo José Hosken para seguir. O conhecido Juca trabalhou e transformou a pequena cidade em notável atrativo turístico, com uma história invejável a ser apreciada, inclusive com bons exemplos de proteção ao Patrimônio Histórico e Cultural. O resgate da força histórica de Catas Altas também é atribuída ao ex-mandatário. Ele conseguiu incluir o Conjunto Histórico e Arquitetônico do Caraça no espaço geográfico catas-altense,  tema que abordamos no texto anterior.

A esse conjunto se somam igrejas seculares como destaque, ornamentadas por um casario mantido no estilo barroco. As igrejas famosas, bem cuidadas, como a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, as capelas de Santa Quitéria, Senhor do Bonfim e de Morro D’água Quente, e a Igreja do Rosário, representam parte da grande riqueza cultural de Catas Altas.

Quem quer ir não pense mais meia vez. E se deseja escolher um momento propício, no inverno ocorre a Festa do Vinho, excelente opção cultural e de lazer. No gosto cultural desse evento sobressai a pujança de um povo que, movido por um padre idealista, soube tornar próspera a cidade que hoje existe no seio da Estrada Real.

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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.