ESTRADA REAL: De Cocais, Barão e Gongo Soco: viagem regida por Saint-Hilaire e Dona Nostalgia

Preciso contar aqui a terrível ousadia de repetir as minhas andanças pelos caminhos da Estrada Real. Ousadia, audácia, destemor, coragem, atrevimento porque em cada parada me concentro em entrevistas e em cada contato há sempre o risco da falta de alguém. O baque ocorrido em Cocais foi deveras muito forte quando se deu notada a ausência daquele que me havia atendido com muita atenção, o responsável pelo Museu Fernando Tôco, bisneto do criador, Augusto Bento do Nascimento. Augusto, também músico (violonista e pistonista), havia falecido. Uma pena indescritível: ele tinha apenas 66 anos e mostrava grande disposição, nem parecia às vésperas de encerrar a sua passagem neste mundo.

“Mas é a vida”, comentou na época um de meus companheiros de estrada, fotógrafo e empresário Roneijober Alves de Andrade. Pior ainda está por vir, dentro de poucos dias: quando estiver em Bento Rodrigues e Camargos, distritos marianenses, que serviram, também, para Dissertação de Mestrado em História de meu ex-professor universitário, Flávio Rocha Puff. A igreja, as casas, o Bar da Sandra, os homens das esquinas e botecos e praças, muitos desses não estarão mais por lá. E a gente vai de nostalgia a uma dor pré-agônica. E será sempre assim com a vida continuando a acontecer.

Voltando a Cocais, o museu de Fernando José do Espírito Santo, o Fernando Tôco, situado quase parede e meia com uma fábrica de iogurte, tinha no seu ornamento cerca de 300 objetos e documentos, todos da família, usados pelos personagens mencionados. Uma revelação que fizemos como “furo”, praticamente os estudiosos da Estrada Real nem perceberam: que a separação do Caminho Novo com o Velho, oficialmente feito em Conselheiro Lafaiete, na verdade, de acordo com o falecido Augusto, ocorre exatamente em Cocais. “O Caminho Velho segue para Água Limpa e daí a Caeté, Raposos e Congonhas; o Caminho Novo sai em Mariana, Ouro Preto e Lafaiete, seguindo para o Rio pela BR-040”, contou ele.

Ruínas da Casa do Barão de CocaisDepois de passar pelas ruínas da Fazenda do Barão de Cocais, cujo nome próprio de cartório e pia batismal era José Feliciano Pinto Coelho da Cunha, ouvi a história dele contada por um antigo vizinho da família. De acordo com esse narrador e a própria história, o Barão ocupou interinamente o governo da província mineira durante a Revolução Liberal de 1842. E chegamos à cidade que recebeu o seu nome, e tem como principal atrativo cultural, histórico e turístico o Santuário de São João Batista do Morro Grande. Nesse templo, a arquitetura barroca chama a atenção em sua parte interna com toques do maior artista mineiro de todos os tempos, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que esculpiu, também, em pedra-sabão, a imagem de São João Batista. Seus altares são folheados a ouro e a pintura do teto é atribuída ao Mestre Ataíde.

Segui para Gongo Soco, um pouco adiante, viajando ainda na descrição centenária de Saint-Hilaire: “Quase logo após ter atravessado São João do Morro Grande (Barão de Cocais), passei diante de uma cruz”, narrou, descrevendo um terreno que teria sido habitado ou assombrado por almas do purgatório. Antes de chegar à Fazenda Gongo Soco, encontram-se as ruínas do palácio do Barão de Catas Altas, onde está o arco do triunfo, por onde passaram Dom Pedro I e Dom Pedro II com suas comitivas. Também antes da fazenda há uma verdadeira cidadela inglesa com várias ruínas do século 18. E dentro da Fazenda Gongo Soco, de propriedade da família de Diogo Bethônico, destaca-se a Capela de Santana, construída no século 18, restaurada e conservada pelos seus proprietários. Franklin Bethônico foi quem me recebeu e mostrou todo o belo espaço, por sinal, muito bem cuidado. Dentro do terreno há uma estrada de terra, de apenas 11 quilômetros, até Caeté e na continuidade asfalto para Sabará, já dentro da Grande BH.

E assim se cumpre uma jornada num ponto polêmico da Estrada Real, além dos marcos e placas que nos orientam (ou desorientam). Polêmico onde seria ou não o entroncamento Caminho Novo/Velho; confusão dos marcos onde há placas de Região da Estrada Real, sem que se saiba de verdade o que significa essa expressão. Os turistas querem uma melhor sinalização e, então, recorremos ao Instituto Estrada Real, órgão da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Alô pessoal!

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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.