ESTRADA REAL: Caeté tem história de guerra e até cachaça de 1756

Continuamos o nosso trajeto da Estrada Real. O leitor, se os tenho, deve ter percebido que vínhamos em sequência linear, depois nos detivemos a fazer círculos. As cidades, distritos ou localidades hoje nos oferecem os acessos por asfalto e os seguimos como forma de mais praticidade. Nos velhos tempos, os nossos ancestrais percorriam os caminhos sem retroceder jamais. É o caso da região em que nos encontramos, de Caeté, circundada por locais importantes como a Serra da Piedade e Morro Vermelho, muito próximo, e Rio Acima, Raposos e Sabará.

Segundo os seus próprios relatos, no fim de 1817 e início de 1818, Auguste de Saint-Hilaire aí esteve e registrou importantes fatos, utilizando a técnica das entrevistas como se fosse ele um jornalista tarimbado. Partindo na primeira etapa da Serra da Piedade, de onde se descortina um verdadeiro cartão-postal da região, tentamos fazer o mesmo trajeto. Há no local uma capela muito grande, construída na segunda metade do século 18, de acordo com Saint-Hilaire, que testemunhou o padecimento, milagres e o fenômeno da Irmã Germana, mulher-mito que ali residiu na mesma época.

Além das cidades da Grande BH e de outros horizontes mais distantes, podem ser apreciadas as variedades da fauna e da flora riquíssimas ao redor. O visitante tem uma novidade extraordinária: o Laboratório Astronômico Frei Rosário, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que tem dias e horários de abertura ao público. Pudemos, então, uma equipe previamente designada, contemplar os astros por meio dos mais avançados equipamentos de observação, com o acompanhamento de técnicos que cuidam desses estudos.

Caeté, ou antigamente, Vila Nova da Rainha, fundada no início dos anos 1700, começa por oferecer um clima agradabilíssimo, que teve, com certeza, pequenas alterações, graças a um processo de preservação que foi aplicado na região. Praticamente todos os cidadãos com os quais encontramos, os quais chamamos de Personagens da Estrada Real, sugeriram visitação ao Solar do Tinoco, que abriga  a Fundação Israel Pinheiro e o Solar João Pinheiro. Tivemos o prazer de falar, durante a mesma semana, final de maio de 2005, com o então secretário de Obras Públicas do Governo de Minas, Israel Pinheiro Filho, ocasião em que fomos presenteados com exemplares  de livros que se referem à história de Caeté e da família Pinheiro.

Visitando ponto por ponto o patrimônio histórico e cultural de Caeté, deparamo-nos com a Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso, de 1757, ornamentada por suntuosos altares, os quais marcam o início da tradição rococó em Minas Gerais. Outros monumentos são destacados: Museu Regional, Pelourinho do Poder, Museu Pharmácia Ideal, igrejas de Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora Mãe de Deus, nos distritos de Roças Novas e São Francisco.

No distrito de Morro Vermelho foi fincado em frente à Capela de Nossa Senhora do Rosário, construção do século 18, um marco da Estrada Real. Em 1708, diz a história, eclodiu a partir de Caeté, com vários levantes em Morro Vermelho, a Guerra dos Emboabas, cujo desfecho levou à separação das capitanias de Minas e São Paulo. No caminho para Sabará, Raposos e Rio Acima, enfeita a paisagem traços da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), da Vale.

E para encerrar mais uma viagem inesquecível, interessante parada no Museu da Cachaça, que funciona também como restaurante. Notável é constatar que quase oito mil marcas de aguardente enfeitam as prateleiras do museu. A cachaça mais cara sempre é a Havana, de Salinas, no Norte de Minas, cujo preço varia de R$ 5 a R$ 7 mil reais. Mas a mais antiga é a Manjopina, de Vitória de Santo Antão, em Pernambuco, de 1756.

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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.