ESTRADA REAL: Bom Jesus do Amparo: um desvio que mudou a história da região

Se a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) e o Governo Mineiro não se ocupassem em criar o circuito da Estrada Real, logicamente outro organismo turístico ou histórico cuidaria desta relevante questão. Para quem conhece hoje o trajeto de Diamantina a Paraty, pelo Caminho Velho, impossível seria viver sem evocar a história. E este pobre escriba, se está narrando a passagem pelos caminhos que se abriram para a cultura, não o faz apenas em virtude de ter sido importante o trajeto, mas, principalmente, pelo fato de existir um manancial de riquezas nas narrativas dos cidadãos e de antigos pesquisadores.

Por exemplo, das várias vezes nas quais repeti a passagem em algumas localidades, ouvi histórias do Marquês de Pombal, o verdadeiro primeiro-ministro português que ficou encarregado de reconstruir Lisboa, quase que totalmente destruída pelo terremoto de 1755. A explicação pela existência de muitas cidades e localidades ao longo do caminho era apenas a passagem, mas o conceito se alterou. O produto até então mais consumido, a aguardente de cana, puxava uma lista enorme de mercadorias sobretaxadas pela Coroa Portuguesa. Daí, o entender-se que da simples passagem de riquezas brasileiras entregues a Portugal nasceram comunidades multiplicáveis e multiplicadas. Um dia formou-se uma caravana portuguesa que percorreu 177 municípios entregando aos moradores um panfleto de agradecimento de Portugal ao Brasil por terem os colonizados custeado a reforma na parte de Lisboa denominada Baixa Pombalina.

Quando cheguei a Bom Jesus do Amparo numa das dezenas de vezes nas quais passei por aí (e continuo passando, por ser uma “terra nostra”), encontrei-me com a tal “caravana do agradecimento”, depois ouvi dos bom-jesuenses histórias sobre o desenvolvimento do município. De Auguste de Saint Hilaire, em “Viagem pelo Distrito dos Diamantes e Litoral do Brasil” (Editora Itatiaia, 1974), até as narrativas sobre o eminente filho da cidade Dom Carlos Carmelo de Vasconcellos Motta (1890-1982), são decorridos emocionantes capítulos, inimagináveis acima de tudo.

Em outras idas a Bom Jesus, falei com o saudoso ex-prefeito Raymundo dos Santos Motta (in memoriam), que contou o seguinte: “O Cardeal Motta foi o responsável por desviar o asfaltamento da atual BR-381 para as proximidades de Bom Jesus do Amparo. O trajeto passava por estrada de terra,  via Santa Bárbara, Barão de Cocais, Caeté, Sabará, até Belo Horizonte. Com a influência do Cardeal, por ser amigo do então presidente da República, Juscelino Kubitscheck de Oliveira, ocorreu a alteração significativa no projeto”.

Também outro ex-prefeito, Raymundo Maltez Leite (in memoriam), revelou episódios interessantes da história bom-jesuense, principalmente de sua emancipação, em 1953. Não só Maltez foi prefeito, mas também a viúva, Dona Geralda. Ambos contribuíram de forma decisiva para o progresso da pequena e receptiva cidade. As referências ao Cardeal Motta e também ao Padre Pedro Pessoa (1912-1998) constituíram como o ponto alto da conversa.

Além disso, falaram sobre os acontecimentos ocorridos na Fazenda do Rio São João, monumento construído no século 18, restaurado recentemente. Naquela obra de arte, localizada a apenas quatro quilômetros da cidade, Luiz Alves de Lima e Silva, chamado de Duque de Caxias (1803-1880), esteve hospedado, em 1842, acompanhado por uma tropa que chegou à Província de Minas Gerais com o fim de pacificar a Revolução Liberal que se desencadeava sob a liderança de Teófilo Otoni.

E quem conhece a ex-prefeita, atual vereadora, Inez Santos, também tem o privilégio de conviver com a verdadeira dedicação ao torrão natal e suas histórias narradas em detalhes. O seu “velho e inesquecível” genitor, João Santos, teve, também, a felicidade de participar dessa jornada em prol da cidade. Inez ainda se completou na Associação Microrregional dos Municípios do Médio Piracicaba (Amepi), como presidente e dedicada à integralização dos municípios. Ela sempre pregou que não haveria progresso e desenvolvimento em postura individual.

Como revelei, os locais mais próximos do centro histórico da Estrada Real, como a região situada entre Ouro Preto até Diamantina, tiveram e continuam atraindo mais visitação de turistas. Tornei-me amigo de dezenas dos personagens mas nem sempre consigo citar todos. São padres, donas de casa, comerciantes, estudantes, professores, agricultores, jornalistas, profissionais liberais e historiadores, que sempre carregam informações interessantes.  Com o tempo, o leitor consegue perceber uma notoriedade que nós, pessoalmente, constatamos: a multiplicação do interesse por uma história que ameaçou se extinguir, mas reagiu, a Estrada Real. Ainda bem.

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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.