ESPORTES: Parede meia – Clássico mineiro terá torcida dividida após quatro anos

O perfil do torcedor mudou muito nos últimos anos. Muitas dessas mudanças fazem parte de um equivocado pacote de europeização do futebol ao redor do mundo. A transformação dos estádios em arenas, as cadeiras no lugar das arquibancadas e o fim da geral, o setor mais folclórico no passado em templos como Mineirão e Maracanã, são exemplos de uma modernização que inegavelmente trouxe maior conforto, mas também uma descaracterização da figura histórica do torcedor brasileiro e de sua forma de torcer.

Uma das maiores saudades que sinto de um tempo não tão distante era, quando no clássico mineiro, torcedores de Atlético e Cruzeiro dividindo o Gigante da Pampulha ao meio. O maior clássico das Minas Gerais tinha um charme maior por isso e era um fator que chamava a atenção no país inteiro. Como grandes rivais em outras partes do Brasil tinham seus próprios estádios, os clássicos regionais eram como jogos comuns na hora da divisão de ingressos, na casa de um ou outro. Era o caso, por exemplo, do Bavi (Bahia e Vitória) em Salvador e do Grenal (Grêmio e Internacional) em Porto Alegre. Porém, na capital mineira, atleticanos e cruzeirenses dividiam o mesmo lar, quando um estava em casa o outro estava fora dela, mas em dias de clássico não tinha outra maneira, era de parede meia, o Mineirão se dividia e ficava tricolor. De um lado o branco e preto da massa alvinegra, do outro o azul e branco da China Azul, era lindo de se ver!

Nosso clássico é música pronta. Sabendo disso, a banda mineira Skank, composta por dois cruzeirenses e dois atleticanos, no dia 16 de março do ano de 1997 o escolheu como pano principal para a gravação do clipe da também clássica “É Uma Partida de Futebol”. Recordo-me ainda quando um amigo gaúcho me acompanhou pela primeira vez no grande clássico das Minas Gerais, ele acostumado a tantos grenais com 90% pra um lado ou outro, se encantou pela divisão meio a meio das torcidas, as provocações nos gritos e nos gestos, no hasteamento de bandeiras e, claro, a cada bola na rede, mesmo se não fosse gol, porque se a  bola na rede fosse pelo lado de fora e a torcida rival se enganava num alarme falso achando que tinha sido gol, recebia de presente do outro lado os gritos de “que vacilão, que vacilão!”

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Mineirão volta a receber o principal clássico do futebol mineiro com divisão igual de torcidas.

Mas a festa começava mesmo era bem antes da bola rolar, a expectativa pelos bandeirões das duas maiores organizadas mineiras, a Galoucura e a Máfia Azul, que a cada clássico se superavam em tamanho, fazia parte do show. A imprensa de todo país se curvava ao tamanho e a beleza do clássico.

Com o fechamento do Mineirão para as reformas visando a Copa do Mundo do Brasil, os dois clubes de Minas passaram a mandar seus jogos na cidade de Sete Lagoas, em um estádio modesto para o tamanho do clássico. E, por questões de segurança, segundo a Polícia Militar, clubes, Federação e Ministério Público, ficou inviável realizar o clássico nos moldes de antes. Assim se instituiu o capítulo torcida única, triste, mas necessário até então. Porém, se esperava que, com a reabertura do Mineirão, os clássicos de duas torcidas voltassem a ocorrer, e até foi assim na reinauguração do estádio no dia 03 de fevereiro de 2013, quando o Cruzeiro venceu por 2 a 1, mas depois disso os presidentes dos clubes não se entenderam e o clássico não voltou mais a receber as duas torcidas em proporções iguais. A questão da segurança também foi usada como razão para evitarem o clássico de duas torcidas, mas a violência não diminuiu com a torcida única, porque é sabido que as brigas mais graves entre torcedores em dias de clássico historicamente nunca foram no estádio, mas em bairros, bares e estações de metrô.

Felizmente no dia 01 de fevereiro deste ano o Mineirão voltará a ser de atleticanos e cruzeirenses, teremos novamente um clássico colorido em três cores. Para os mais saudosistas, como eu, é uma maneira de voltar ao passado, reviver velhas emoções e relembrar momentos de glórias e de tristezas, olhando para frente e vendo a oposta do outro lado do campo. Sei que quando eu entrar naquele palco ainda sagrado do futebol será impossível não ouvir baixinho, no inconsciente, o Rei Roberto cantarolando “Quando eu estou aqui, eu vivo este momento lindo (…). Se chorei, ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi!”.

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Amante do futebol, skatista há mais de uma década, entusiasta de automobilismo e apreciador de esportes em geral. Acompanha os principais eventos esportivos nacionais e internacionais, muitos deles "in loco", para absorver melhor as emoções e repassa-las com maior riqueza de detalhes.