ESPORTES: O fim do amendoim – Muita Europa e pouco Brasil

Recordo-me que quando comecei minha vida escolar, nas folhas do caderno, entre as matérias que me iniciavam na vida das letras ou no caminho científico, sempre estavam desenhadas com um lápis e bem coloridas as camisas dos clubes do futebol brasileiro.

A minha “arte”, como o da maioria dos meus colegas de geração, tinham fronteiras definidas de quais as camisas mereciam lugar na nossa galeria de papel e quais escudos de clubes mereciam nosso trabalho e empenho no meio das aulas.

A gente ouvia falar dos clubes europeus e até tínhamos acesso. Na época ao campeonato italiano, por exemplo, na TV aberta, e muita informação sobre o Barcelona, porque era o clube do ídolo nacional da época, Ronaldo Nazário, o “Fenômeno”, mas o que tocava o nosso coração eram mesmo os clubes brasileiros.

O Real Madrid ou outro gigante europeu certamente não ganharam muita atenção de minha parte na época, mas eu sabia bem desenhar a camisa, reconhecer o escudo e até escolher no futebol de botão clubes como a Tuna Luso, O Sampaio Corrêa, a Portuguesa de Desportos, além do União São João de Araras, que incomodava os grandes do futebol nacional e esteve na elite do país por quatro vezes nos anos 90 e, hoje, se encontra sem atividades profissionais de futebol.

Até mesmo o nosso Valério de Itabira mexia mais com o imaginário dos pequenos amantes do futebol do que aqueles times que jogavam nas bandas de lá. O produto nacional era bom e, por isso, valorizado e admirado pelas crianças que se iniciavam na paixão pelo esporte mais importante de nosso povo.

Este texto tem um tom saudosista pela profunda tristeza que me assolou no último final de semana, quando a Portuguesa, aquela mesma que eliminou o Galo em pleno o Mineirão lotado em uma semifinal de Brasileiro em 1996, ficou pela primeira vez em sua história sem divisão nacional oficial para disputar. Nem mesmo a série D deverá fazer parte da rotina do clube do Canindé.

O que me fez refletir nessa história é como os clubes, que muitas vezes foram a referência maior de uma determinada comunidade, que ensinaram mais sobre a geografia do nosso país-continente e as tradições de um povo para crianças como eu fui, se perdem no limbo da incompetência, do descaso e do descarte.

A geração atual sabe mais de Manchester, Barcelona e de Madrid, mas apreende essa emoção pela tela das TVS, tabletes e celulares. O estádio da cidade com a presença dos ídolos virou coisa rara, a turma do amendoim está envelhecendo e ninguém parece querer os substituir. Mas que pelo menos, mesmo que nas telas digitais, alguns um dia voltem a desenhar as camisas que fizeram muita história por aqui.

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Amante do futebol, skatista há mais de uma década, entusiasta de automobilismo e apreciador de esportes em geral. Acompanha os principais eventos esportivos nacionais e internacionais, muitos deles "in loco", para absorver melhor as emoções e repassa-las com maior riqueza de detalhes.