ESPORTES: O desportista do século

O esportista americano Muhammad Ali, considerado o maior boxeador da história, morreu no último dia 03 de junho, aos 74 anos. Ali, que sofria de Parkinson há décadas, havia sido internado no começo desta semana por complicações respiratórias.

“O maior”, como o próprio se considerava, não foi só um dos melhores, senão o melhor pugilista de todos os tempos, mas também foi um grande ser humano. Certamente Ali nasceu para lutar dentro e fora dos ringues. Seu maior oponente não foi Frazier, nem Foreman, e sim propósitos maiores, que o tornam uma lenda não só do esporte, mas de toda humanidade. Seu maior adversário era o preconceito, seja pela cor ou etnia. A sobreposição dessa causa nobre sobre uma medalha nos leva a entender quão grande esse ser humano foi e sempre será em nossos corações.

De fato, Ali tinha uma sensibilidade extrema quanto às causas sociais, sensibilidade esta que ajudou a formar sua forte personalidade. Sempre foi polêmico, e nunca recuou em suas posições. Com sua metralhadora verbal, mostrou ao mundo a cara de uma América racista, preconceituosa, hostil. Com suas atitudes, fez o mundo ver, por exemplo, o quanto a Guerra do Vietnã era um absurdo e se recusou a ser envolvido nesse erro. Pagou caro por suas opiniões e nunca retrocedeu. Usou a oratória inflamada para provocar seus oponentes e foi precursor dessa espécie de marketing. E todo discurso inflamado e raivoso feito por ele foi em prol de outros negros, mostrando-lhes que eram grandes e precisavam também lutar por sua autonomia. Até sua arrogância esteve do lado do bem.

Ali nasceu com o nome de Cassius Marcellus Clay Jr. em 17 de janeiro de 1942. E seus treinos de boxe surgiram como uma tentativa de se vingar do roubo de uma bicicleta, aos 12 anos, mas acabaram se tornando carreira. Aos 18, já era campeão olímpico em Roma.

Em seguida, decidiu mudar de nome e passou a se chamar Cassius X, em homenagem ao líder dos “Black Muslims”, Malcolm X, um grande defensor dos direitos dos negros nos Estados Unidos. Ele se converteu ao islã um mês mais tarde, quando adotou o nome de Muhammad Ali como é conhecido hoje em dia.

Nessa época, os Estados Unidos estavam em guerra, uma guerra feia, sangrenta e, acima de tudo, injusta, o que contrapunha o estilo de Ali. Estilo que no ringue era belo e muito justo. O garoto acabara de se tornar o maior boxeador de todos os tempos. Em meio à sangrenta guerra contra o Vietnã, o jovem pugilista campeão olímpico se recusa a ir para a guerra, recusa a atacar. Ali deu exemplo de sua filosofia de resistência pacífica e desobediência civil. Foi tão bom comunicador em levar seu propósito à tona quanto lutador.

Sua recusa o fez ser afastado do esporte por três anos, e, mesmo diante do alto preço pago por suas atitudes, Ali nunca se mostrou arrependido. Ele escapou da prisão, mas foi afastado dos ringues. Indultado em 1971, Ali reconquistou o título em 1974, no então Zaire (hoje, república do Congo), onde enfrentou George Foreman em uma luta histórica. Foreman, também negro, fazia o jogo do establishment, preferindo não se envolver em polêmica e se omitindo em relação às condições em que vivia a população negra. Ou seja: o oposto de Ali.

A estrela negra americana ganhou a simpatia do povo africano com uma saraivada de palavras contra seu oponente, não hesitando em usar termos insultuosos. E venceu a luta depois de ser brutalmente castigado por Foreman (Ali conta que no 5º round, após ser duramente castigado por Foreman, achou que iria cair, pois suas vistas escureceram e ele pensou que era seu fim na luta). Entretanto, a esquiva de Ali e sua resistência foram fundamentais para suportar os golpes; sua paciência e inteligência o levaram a guardar energia para os minutos finais e atacar no devido momento para nocautear Foreman e arrancar o título de campeão mundial. Esse combate, e a tensão que o cercou, foi considerada a maior luta de boxe de todos os tempos, sendo que, ao final da luta, o juiz precisou segurar ambos lutadores e então erguer o braço de Ali, pois nenhum dos competidores conseguia ficar de pé.

Em 1978 deixou de ser campeão mundial ao perder para Leon Spinks, mas recuperou o título meses mais tarde, no mesmo ano. Perdeu para o compatriota Larry Holmes em outubro de 1981 e, dois meses depois, uma derrota contra Trevor Berbick seria seu último combate. Depois de uma carreira de 30 anos – que se estendeu entre 1960 e 1981 – com 56 vitórias em 61 combates, incluindo 22 em campeonatos mundiais, Muhammad Ali pendurou as luvas.

Em 1996, Ali foi escolhido para acender a tocha olímpica em Atlanta e, dois anos mais tarde, foi nomeado “enviado da paz” pelas Nações Unidas. Em 1999, foi considerado a “Personalidade Desportiva do Século XX” pela Sports Illustrated. Recebeu ainda a mais alta distinção atribuída a um civil nos Estados Unidos: a presidencial Medalha da Liberdade, em 2005.

Embora toda tristeza que o Parkinson traz, como perda de memória e constantes tremores, Ali refletia muita alegria, serenidade e paz em suas debilitadas aparições em prol de suas crenças. Sempre um combatente, Muhammad Ali travou uma batalha contra o Mal de Parkinson que agora teve seu desfecho. Siga em paz, campeão. Infelizmente não me recordo onde, mas li que sua vida pode ser considerada como um round em que os negros venceram numa luta que ainda está muito longe de terminar. Muhammad Ali deve ser lembrado não apenas por ter sido o “The greatest” do boxe, mas por, possivelmente, por ter sido o maior do mundo!

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Lucas, Cabelo e até Lucão (juro!). Único filho homem em uma família com duas irmãs que, assim como todo brasileiro, também sonhava em ser jogador de futebol. Tão talentoso que do campo foi para o sofá e do sofá para o teclado. Hobbie? Bola. Seja redonda ou oval, grande ou pequena, com ou sem costura; a emoção é sempre a mesma!