ESPORTES: O audacioso Fernando Diniz

Dizer que o Audax chegou até a final do campeonato paulista por sorte é desprezar o ideal de um time audacioso. Dizer também que é fácil implementar esse estilo de jogo em times pequenos como o Audax é, no mínimo, retrocesso.

O time da cidade de Osasco, além de ter chegado à final, eliminou gigantes paulistas como São Paulo e Corinthians de forma incontestável. Fato é que o Audax é o time que apresentou melhor futebol no Brasil no primeiro trimestre. Pouco importa o fato do time ser pequeno e isso auxilie na manutenção do técnico. O contraditório e triste é saber que os grandes que possuem as melhores condições de trabalho pela infraestrutura, exposição, dinheiro e torcida, também possuem as piores condições ao mesmo tempo por estarem fadados à falta de paciência e profissionalismo de quem os dirige e da torcida que insiste em se sentirem donos irrestritos de sua agremiação.

Diante da contradição de que os pequenos possuem “melhor condição de trabalho”, fica evidente que a carência dos grandes é a audácia. Eles precisam se arriscar mais, garantirem que um treinador colha os frutos de sua concepção, se tornar mais profissionais na medida em que afastem as opiniões da mídia e torcida nas tomadas de decisões dos clubes.

Sempre quis falar sobre o Audax, não só por esse último trimestre, mas por terem desenvolvido um trabalho de longo prazo há três anos em Osasco e que, mesmo diante de fracassos, deu respaldo ao treinador que, por sua vez, teve postura para bancar o jeito de como enxerga futebol. Anteriormente quis falar do Audax pela irreverência e insanidade (sim, considerava insano um time pequeno usar goleiro-linha), hoje me deleito em analisá-lo como algo que possa vir a ser a quebra do paradigma para os grandes clubes.

Na primeira vez em que o time de Fernando Diniz enfrentou o São Paulo, há dois anos, foram tantos erros e absurdos do time de Osasco que a torcida tricolor no Morumbi se divertia, gritando “toca pro goleiro”. Por fim, o que foi considerado chacota, hoje se tornou revolução. E, talvez, os mesmos que se divertiram há dois anos no Morumbi, choraram com a eliminação desse ano por 4×1.

Agora analisemos de uma forma bem simples como é o jeito do Audax jogar. Engana-se quem o compara com o “tik-taka” do Barça e seleção espanhola, que procuram incentivar a troca de passe como manutenção da posse de bola. Diniz é um pouco mais ousado, incentiva a troca de passe (mesmo em zonas de perigo) para fazer a transição defesa-ataque com rapidez e objetividade. Se pegarmos o exemplo do jogo Audax contra o Corinthians pela semifinal do Paulista, veremos que a troca de passes nem é tão longa assim, a maior série foi de 11 passes. Bem diferente das intermináveis trocas de passes feitos pelo Barça e Espanha que chegam à marca dos 30. Vale lembrar que o Audax também não se restringe a toques curtos e rápidos. Chutão também não é proibido (foram 25 contra o Corinthians), muito menos recuos para o goleiro (foram 16).

Enfim, como nem tudo são flores, me despeço com o coração amargurado por não poder ver de novo este time atuando. Como de praxe todos destaques dos pequenos irão para outros clubes maiores. E o elenco foi formado apenas para a disputa do primeiro trimestre, se restringindo apenas ao Paulista deste ano. Porém, ainda espero ver Fernando Diniz implementando seu jeito audacioso em algum outro clube. Porque competência para tal ele já provou ter, a questão maior é se algum clube terá disposição bancar essa concepção que um dia já foi chacota, mas hoje se tornou exemplo.

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Lucas, Cabelo e até Lucão (juro!). Único filho homem em uma família com duas irmãs que, assim como todo brasileiro, também sonhava em ser jogador de futebol. Tão talentoso que do campo foi para o sofá e do sofá para o teclado. Hobbie? Bola. Seja redonda ou oval, grande ou pequena, com ou sem costura; a emoção é sempre a mesma!